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A Nerd e o Mafioso

Mia Harris, uma jornalista em crise, arrisca tudo para salvar sua carreira ao investigar a influência da Tríade. Em um bar perigoso, seu caminho cruza com o de Jun Zhao, um mafioso que lida com o fim traumático de um namoro. Intrigado pela determinação da jovem, Jun decide ajudá-la na reportagem. O que começou como um suporte estratégico e uma simples distração logo se transforma em uma obsessão avassaladora, mudando o destino de ambos.
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Capítulo 3

No dia seguinte, depois de desligar o telefone com Cameron, meu coração ainda batia acelerado, como se cada palavra trocada tivesse acendido uma faísca de adrenalina. Ele confirmara o endereço de um pub em Chinatown, um lugar conhecido por ser frequentado por membros da Tríade – um mundo que, até aquele momento, existia apenas nos rumores e nas páginas da pasta que John me entregara.

 Sentei-me na beirada do sofá desgastado do meu apartamento, o celular ainda quente na mão, enquanto traçava mentalmente o plano que se formava em minha cabeça. Sabia que John não me dera a matéria para abordar diretamente um membro da Tríade; ele queria que eu investigasse opiniões públicas, que entrevistasse moradores das áreas afetadas pela organização. Mas meu emprego – minha vida em Manhattan, minha independência – dependia de algo maior. Uma entrevista com alguém de dentro, alguém com o sobrenome Zhao, seria um golpe de mestre, um furo jornalístico que nem mesmo Tyler poderia roubar. As opiniões das ruas seriam apenas um complemento, um pano de fundo para a verdadeira história que eu precisava contar.

 Chegar em casa mais cedo naquele dia foi um alívio, mas também um lembrete da urgência. O apartamento, com suas paredes brancas manchadas e móveis de segunda mão, parecia pequeno diante da magnitude do que eu estava prestes a fazer. Corri para o banheiro, o azulejo frio sob meus pés descalços enviando um arrepio pela espinha. No chuveiro, a água quente caiu sobre mim como uma bênção, e lavei os cabelos com meu shampoo de morango, um hábito da adolescência que ainda me ancorava em dias de caos. O aroma doce e familiar encheu o banheiro, misturando-se ao vapor que embaçava o espelho. Saí apressada, envolta em uma toalha felpuda, os cabelos pingando enquanto corria para o quarto. O guarda-roupa era um campo de batalha, roupas espalhadas pelo chão como vítimas de minha pressa. Vasculhei gavetas e cabides, jogando camisetas e calças de qualquer jeito, enquanto repetia mentalmente o conselho de Iris, compartilhado antes de eu deixar a redação mais cedo. Ela não aprovava minha ida ao pub, muito menos minha intenção de me aproximar de homens da máfia.

 "Isso é loucura, Mia," dissera ela, os olhos castanhos arregalados de preocupação. Mas, ao perceber que eu não mudaria de ideia, suspirou e cedeu, oferecendo um conselho prático: "Use seu charme, Mia. Toda mulher carrega uma chama feminina dentro de si que atrai os homens. Se fizer direito, no mínimo só precisará dormir com um deles e terá tudo que precisar para essa bendita matéria." Ela riu, mas a piada me deixou horrorizada.

 Eu? Me prostituir por uma matéria? Jamais! Iris me conhecia bem o suficiente para saber que eu nunca cruzaria essa linha, mas seu comentário ficou ecoando, uma provocação que misturava humor e advertência.

"Algo bonito e decotado," murmurei, repetindo suas palavras enquanto fazia uma careta para o espelho. Peguei uma blusa fina de mangas compridas, na cor cinza, que abraçava o corpo sem ser vulgar e continha um decote mínimo. Combinei-a com uma calça preta social, justa o suficiente para valorizar a silhueta, e joguei um blazer preto por cima, conferindo um ar profissional que me dava confiança.

 Olhei-me no espelho do quarto, a luz fraca da luminária destacando os contornos do meu rosto cansado. Não estava perfeita, mas era o melhor que eu podia fazer com o tempo e o guarda-roupa que tinha. Prendi os cabelos castanhos-claros em um rabo de cavalo alto, deixando algumas mechas soltas para suavizar o visual. Maquiagem nunca foi meu forte, mas passei um batom levemente avermelhado nos lábios, um toque de cor que me fazia sentir mais viva. Era o suficiente para enfrentar o que estava por vir – ou assim esperava. Caminhei pelo apartamento, murmurando os itens que precisava como um mantra: "Bolsa, bloco de notas, celular, chaves..." Peguei cada um com cuidado, enfiando-os na bolsa de ombro que já carregava as marcas de anos de uso. O apartamento parecia ainda menor sob a tensão do momento, com suas cortinas desbotadas e o tapete puído que cobria o chão de madeira rangente. Desci as escadas correndo, o eco dos meus passos reverberando no corredor estreito do prédio, até chegar ao estacionamento.

Lá estava Petúnia, reluzindo sob a luz fraca das lâmpadas fluorescentes. Max havia feito milagres na oficina, e ela parecia renovada, quase debochada, como se me desafiasse a reconhecer sua importância depois de suas birras recentes.

- Vamos lá, teve seu dia de beleza. É hora de trabalhar! - falei, entrando no carro e girando a chave na ignição. Petúnia rangeu, resmungou como uma criança teimosa, mas finalmente ronronou, viva. Sorri, aliviada, e dirigi para fora, seguindo as instruções do GPS no celular. As ruas de Manhattan passavam em um borrão de luzes neon e táxis amarelos, os arranha-céus erguendo-se como sentinelas de concreto e vidro. Quando cheguei a Chinatown, o cenário mudou: as ruas estreitas eram adornadas com lanternas vermelhas penduradas, placas em caracteres chineses brilhando sob a luz do crepúsculo. Estacionei a alguns metros do pub, o coração batendo tão alto que parecia rivalizar com o barulho do tráfego. Peguei minha bolsa, o bloco de notas e o celular, respirando fundo antes de descer.

 O pub, chamado Dragon's Den, era uma fortaleza disfarçada de bar. A fachada de tijolos aparentes exibia uma placa discreta com o nome em letras douradas, quase invisível contra o fundo escuro. Ao abrir a porta, fui imediatamente envolvida por uma onda de aromas: cigarros, charutos, bebida forte e algo mais acre, talvez drogas, misturando-se ao cheiro quente de madeira envernizada e cerveja fresca. O interior era um contraste entre modernidade e tradição, projetado com uma masculinidade crua. Mesas de madeira robusta, polidas até brilharem, estavam dispostas estrategicamente, cercadas por cadeiras de couro preto que pareciam recém-saídas de uma loja de luxo. As paredes, pintadas em tons de carvão e vermelho-sangue, eram adornadas com uma coleção eclética: dragões esculpidos em relevo, espadas antigas emolduradas, cartazes vintage de marcas de cerveja e uma bandeira chinesa desbotada, pendurada com orgulho. Quadros com caligrafia em caracteres dourados proclamavam palavras como "honra", "lealdade", "família" e "poder", cada uma carregada de um peso que eu podia sentir na pele e que soube identificar por conta de minhas pesquisas. 

 A iluminação era suave, quase conspiratória, com luminárias de ferro penduradas sobre o balcão lançando uma luz âmbar que criava sombras dançantes nos rostos dos frequentadores. Homens ocupavam quase todas as mesas, bebendo, jogando cartas ou conversando em tons baixos. Tatuagens eram visíveis em braços, pescoços e mãos – dragões, carpas, símbolos que eu não entendia, mas que gritavam perigo. Alguns me avaliaram de cima a baixo ao entrar, seus olhos frios e analíticos me fazendo sentir como uma intrusa.

 Fora as garçonetes, que deslizavam entre as mesas com bandejas de bebidas, eu era a única mulher no local, plantada na entrada, olhando de um lado para o outro, completamente perdida. Meu plano, tão meticulosamente traçado até aquele momento, parecia desmoronar. Eu sabia apenas o sobrenome do homem que Cameron mencionara: Zhao.

Cutuquei o canto da unha do polegar com o indicador, uma mania irritante que deixava marcas vermelhas na pele, um hábito de infância que nunca consegui abandonar. Dei dois passos hesitantes à frente, aproximando-me do balcão negro do bar, tão polido que refletia as luzes como um espelho. Apoiei meu bloco de notas e o celular sobre a superfície, examinando o ambiente com cautela. O barman, uma figura robusta com um avental de couro limpo, estava ocupado servindo cerveja para um cliente. Seu rosto, marcado por cicatrizes sutis, não exibia simpatia; seu sorriso, quando finalmente me notou, era mais uma careta de curiosidade.

- Posso ajudar? - perguntou, colocando uma jarra no balcão com um baque. Seus olhos me mediram de cima a baixo, as sobrancelhas franzidas, como se eu fosse uma peça fora do tabuleiro.

- Um Plum Wine, por favor. - pedi, tentando soar confiante. Ele hesitou, claramente surpreso pela escolha, e eu me perguntei se havia cometido um erro. - Algum problema? - perguntei, inclinando a cabeça.

Ele negou com um gesto, um sorriso de canto surgindo em seus lábios, o que não consegui decifrar.

- Nenhum. -  respondeu, virando-se para pegar a garrafa. Era tão evidente assim que eu estava deslocada? O vinho de ameixa chegou em uma taça elegante, o líquido vermelho-escuro brilhando sob a luz âmbar. Dei alguns goles, o sabor doce e ácido acalmando meus nervos enquanto observava o ambiente, procurando por qualquer pista de quem poderia ser Zhao.

- Procurando por alguém? - perguntou o barman, limpando o balcão com um pano, seus olhos ainda me estudando. Pensei em negar, mas ele completou antes que eu pudesse falar: - Se quiser continuar viva, é bom deixar claro o que veio procurar aqui. - Ele me encarou incisivamente, como se fosse um aviso.

 Minha confusão deve ter transparecido, porque ele fez um gesto com a cabeça, como se tivesse compreendido algo. 

- Esse não é um bom lugar para mulheres virem beber sozinhas. Me diga logo, do que precisa? - rapidamente abri meu bloco de notas, atrapalhando-me com as páginas, e disse:

- Certo, estou procurando por alguém, na verdade... conhecido por Sr. Zhao. - O barman endireitou a postura imediatamente, seus olhos passando do meu caderno para o celular e a bolsa, analisando-me pela milésima vez.

- É jornalista? - perguntou, o tom agora mais sério, quase acusatório. Assenti, sentindo um nó no estômago ao ver a expressão de desagrado que cruzou seu rosto. - Terceira cadeira à sua esquerda; -  indicou, apontando com o queixo.

Encarei o homem a quem ele se referia. Era asiático, como a maioria dos presentes, sentado sozinho, encarando o copo de uísque à sua frente com um ar de desinteresse.

- Obrigada! - murmurei, e o barman assentiu, sério, antes de se afastar. Senti seus olhos nas minhas costas enquanto caminhava até a mesa, cada passo aumentando a tensão que apertava meu peito. 

- Com licença... Hmm... O senhor deve ser o Sr...? - Comecei, ajustando os óculos com um dedo trêmulo, mas antes que pudesse terminar, meu celular escorregou da mão. - Oh! - Tentei segurá-lo, mas a bolsa caiu do ombro, o bloco de notas voou para o chão junto com a caneta, e eu me vi murmurando "droga", "desastrada" e "que vergonha" em uma sucessão de pensamentos externalizados. Céus, que desastre! Como alguém me levaria a sério assim?

Minhas bochechas queimavam de constrangimento enquanto me abaixava para recolher os itens.

Para minha surpresa, o homem se levantou e se abaixou ao meu lado, pegando o bloco e a caneta com uma calma que contrastava com meu caos. Ele os ofereceu de volta, e ergui os olhos, encontrando um par de olhos negros e repuxados que me fitavam com um misto de curiosidade e diversão. Seu sorriso, encantador e perigoso, fez meu coração parar por um segundo. Perdi-me por um instante observando seu rosto – terrivelmente bonito, com uma barba por fazer que dava um ar de rebeldia controlada, cabelos negros e lisos caindo sobre a testa. Uma aura de sedução e imponência o envolvia, e quando ele falou, sua voz grave e rouca me tirou o fôlego.

-Meu nome é Jun Zhao. Em que posso ajudá-la? -  Forcei um sorriso, tentando sair do transe que sua presença parecia impor, rezando para que ele não tivesse notado o quanto eu o encarara. - Que modos os meus! Sente-se comigo! - Ele puxou a cadeira à sua frente com um gesto galante, esperando que eu me acomodasse.

Agradeci, sentindo o calor nas bochechas, e apoiei a bolsa na mesa com cuidado, determinada a não deixar mais nada cair. Enquanto ele se sentava, não pude evitar notar os detalhes: a camisa branca com mangas dobradas até os cotovelos, revelando músculos definidos e uma tatuagem parcial de um dragão em seu antebraço; o suspensório preto de couro que acentuava sua silhueta; o coldre de arma visível na cintura, um lembrete frio de quem ele era. Suas coxas, grossas e impossíveis de ignorar na calça preta, completavam o quadro, junto com os sapatos sociais polidos que refletiam a luz âmbar. Quando ele estendeu a mão para pegar o copo de uísque, as veias em seu antebraço se destacaram, e eu desviei os olhos, sentindo que o gesto era mais difícil do que deveria ser.

Por Deus, jamais me sentira atraída assim por um homem. O calor subiu ao meu rosto, e minhas mãos tremiam levemente enquanto segurava o bloco de notas.

- E então... Em que lhe posso ser útil? - perguntou ele, a voz como um convite e uma ameaça ao mesmo tempo. Respirei fundo, me perguntando se ainda tinha tempo de fugir – e o quanto me arrependeria de ter vindo até aqui.

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