
A nerd e o CEO
Capítulo 3
Felipe
Eu tinha certeza de que meu dia seria um grande desastre. Uma pilha de papéis para assinar me esperavam na minha mesa, que eu havia feito questão de ignorar no dia anterior e já me arrependia amargamente. Não bastasse isso, ainda fui impedido de tomar um muito bem-vindo café, por algum funcionário incompetente da cafeteria que deixou alguma coisa pegar fogo, o que comprovava minha teoria de que o dia seria um inferno. Mas, quando me vi seguindo para uma segunda cafeteria, na esquina da empresa, ignorando a mancha de café que tinha em minha camisa antes impecável, ao lado de uma linda mulher, com os olhos azuis mais incríveis que eu já tinha visto, para mais uma vez buscar um café, as coisas começaram a mudar.
Não estava brincando quando disse que não sabia que ela trabalhava para mim, mas agora me arrependia de não ter prestado mais atenção nela antes. Depois de minha crise de riso, que não acontecia a muito tempo, com ninguém além do meu filho, chegamos ao tópico seguro que era o trabalho. Descobri que ela fazia parte da TI - o que explicava o fato de eu não ter reparado nela naqueles cinco meses que Violeta trabalhava na empresa, já que eu passava longe dos nerds da informática -, e era realmente inteligente, mas não de um jeito que fizesse eu me sentir um idiota. Já havia acontecido vezes o suficiente para mim.
Abri a porta da cafeteria, deixando que entrasse primeiro e não consegui frear meus olhos de analisar cada curva daquele corpo pequeno perto do meu, mas que parecia perfeito para mim. O cabelo loiro caía em ondas as suas costas, era grande o suficiente para puxar e parecia tão macio que minha mão pareceu coçar para conseguir passar os dedos nele.
- O que tu vai pedir? - perguntou Violeta, me fazendo subir o olhar para seu rosto, alheio a secada que eu havia acabado de dar em seu corpo.
- Um mocaccino, mas eu posso pedir para nós. - respondi, confuso com a surpresa que apareceu, de novo, em seu olhar.
- Interessante.
- O que?
- Nada. Vou querer ele puro. Vou esperar ali.
Ela apontou para uma mesa do canto e quase correu para lá. Sentindo a ansiedade para me juntar à mulher, fiz nossos pedidos e aguardei, freando a vontade de bater o pé, impaciente como uma criança, como realmente me sentia. Espiei onde estava sentada e Violeta estava concentrada em seu celular, digitando rapidamente, desta vez usando óculos de armação vermelha. Ali, finalmente consegui me lembrar de sua entrevista, dos olhos que ficaram baixos a maior parte do tempo, escondidos pelos óculos, ou eu achei que estavam escondidos. Não tinha reparado em seus olhos azuis e muito menos em suas feições suaves, que me deixavam com uma vontade terrível de ficar encarando.
- Felipe! - A voz da atendente me despertou das lembranças e peguei os copos, agradecendo rapidamente, antes de seguir para Violeta.
Ela levantou o olhar assim que coloquei o copo à sua frente.
- Aqui. Espero que consiga beber este. - disse, tentando sorrir ao me sentar de frente para ela.
- Obrigada. - respondeu, embora parecesse absorta em pensamentos naquele momento enquanto sorria.
O silêncio então surgiu e o sorriso se apagou enquanto via Violeta levar o copo aos lábios vermelhos. Combinava com os óculos, pensei, assim como o que mais ela podia fazer com eles, embora não devesse levar meus pensamentos para o lado sexual. Ela era minha funcionária e eu precisava respeitá-la antes de qualquer coisa.
Sabendo disso, sabia também que precisava me distrair urgentemente e decidi fugir para o tópico trabalho novamente.
- Como está sendo trabalhar na empresa? Está gostando? - perguntei, quebrando aquele silêncio estranho.
- Não é ruim. É difícil algumas vezes, você deve saber que esta é uma área dominada por homens, mas… encontrei alguns aliados também.
Meu rosto deve ter se fechado com aquela informação, já que ela tentou amenizar, balançando a mão como se não fosse nada demais. Mas, ser cercado por mulheres na família me fez crescer com a consciência do quanto era difícil para elas estarem no mercado de trabalho, entre outros tantos obstáculos. Então se tinha uma coisa que não admitia, e tinham muitas outras coisas, era o preconceito dentro da minha empresa.
- Apesar de eu ter sido um cretino por não lembrar de você, quero que saiba que pode me contar sobre qualquer incidente em seu setor. Não me importa de quem seja. Não admito nenhum tipo de preconceito na minha empresa. - disse, sério e encarando aqueles olhos hipnotizantes, mostrando que eu não estava brincando e ao vê-la assentir, também séria, torci para que tivesse acreditado em mim.
- Então… como é ser o CEO? Devem surgir muitos problemas para resolver, não é? - perguntou de volta, bebendo e fazendo caretas, o que me fez segurar o sorriso ao perceber aquilo. Ela realmente preferia o café da outra cafeteria.
- Sempre tem ao menos um problema para resolver, mas faz parte de ocupar o lugar que sempre sonhei.
A minha intenção não era relevar mais do que o necessário para responder a pergunta daquela bela mulher, mas seu olhar era tão receptivo que soltei um pouco mais do que devia. Ela me olhava com algo próximo ao entendimento e me recompensou pela honestidade com algo que eu não esperava.
- Você já… teve problemas envolvendo, sabe, erros de produção, desvios financeiros e coisas do tipo? - perguntou.
- O que?!
Confuso, a vi apertando as mãos no colo, o copo vazio à sua frente, obviamente temendo algo. Agradeci mentalmente o fato de, ao que parecia, ter salvado uma funcionária que obviamente achava que tinha algo errado com o setor financeiro da empresa, da mesma forma que eu mesmo desconfiava a algum tempo. A nossa diferença era que Violeta era da área de TI, aumentando minhas chances de conseguir provas para resolver aquela situação de uma vez por todas.
- Violeta, você encontrou alguma falha no setor financeiro, não encontrou? - perguntei o que realmente precisava saber, conseguindo atrair seu olhar de volta para mim. Ela era tão transparente quanto eu e mostrou que tinha entendido que estava tudo bem conversar sobre aquilo comigo.
- Sim, eu fiz. Não estava exatamente procurando, mas vi que tinha algumas informações que não batiam e alguém… - ela se inclinou sobre a mesa, me fazendo imitar sua postura para escutar seu tom mais baixo -, acessou as planilhas de um computador diferente. Acredito que não possam fazer isso de outro lugar que não de dentro da empresa, não é? Eu não perguntei isso para o supervisor, porque não queria me colocar como suspeita de nada.
Meus lábios se esticaram por conta própria, em um sorriso que devia demonstrar o que eu sentia, que era a satisfação de encontrar Violeta.
- Senhorita Ramos… você pode ser a minha salvação!
- Posso?
Assenti, mas antes que pudesse explicar meu celular começou a tocar. O nome da minha secretária surgiu na tela ao tirá-lo do bolso e suspirei, lembrando da reunião daquela manhã. Eu estava atrasado.
- Preciso ir, mas quero conversar com você mais tarde, se for possível. É importante, preciso da sua ajuda.
Violeta assentiu, sorrindo e fazendo sinal para que eu fosse logo.
- Vá, eu também preciso ir. Algo me diz que o supervisor não vai ser tão receptivo quanto o CEO.
- Bem, então vamos juntos, vou lhe acompanhar. Alguns minutos a mais não farão diferença. Eles não podem começar sem mim.
Rindo, ela levantou para me seguir e fomos juntos para mais um dia de trabalho que nos aguardava. Diferente de como havia chegado mais cedo, desta vez eu estava confiante e animado para um dia que previa enfim as pistas que precisava para começar investigar aqueles que estavam contra mim e dispostos a ajudar meu irmão a tomar a empresa de mim.
Você pode gostar





