
A Mentira que Destruiu Tudo
Capítulo 3
"Não seja ridículo, José Carlos. Dê o relógio para o Ricardo," ordenou Ana Paula, com o queixo erguido.
Seus olhos me diziam que aquilo não era uma pergunta.
"Nunca," eu respondi, minha voz firme apesar do medo. "Esse relógio era da minha mãe. Foi a única coisa que me restou dela."
O nome da minha mãe fez Ana Paula vacilar por um instante. Ela conheceu minha mãe antes dela falecer, e até mesmo Ana Paula, com seu coração de pedra, tinha um pingo de respeito pela mulher gentil que me criou. Mas a hesitação durou apenas um segundo.
"Ricardo quer o relógio. Dê a ele. Não me faça repetir."
"Eu posso te comprar um relógio novo, Ricardo," eu disse, virando-me para o assistente, tentando apelar para qualquer resquício de decência que ele pudesse ter. "Um Rolex, o que você quiser. Mas esse, não. Por favor."
Ricardo riu.
"Eu não quero um Rolex. Eu quero este."
Ele olhou para Ana Paula com um beicinho infantil.
"Ana, ele não quer me dar. Faz ele me dar."
A paciência de Ana Paula se esgotou.
"Chega dessa palhaçada!"
Ricardo, vendo que tinha a bênção dela, avançou e tentou arrancar o relógio da minha mão. Eu me segurei com força, e na luta, o relógio escorregou e caiu no chão de mármore com um barulho doentio. A tampa de vidro se estilhaçou.
Ao mesmo tempo, a corrente do relógio arranhou o pulso de Ricardo.
"Ai!" ele gritou, um arranhão fino e vermelho aparecendo em sua pele.
Ana Paula correu para o lado dele, ignorando-me completamente.
"Você o machucou! Seu desgraçado!"
Ela me empurrou com toda a sua força. Desequilibrado e chocado, tropecei para trás, batendo a cabeça na quina da escada. Uma dor aguda explodiu na parte de trás do meu crânio, e o mundo girou.
Caí no chão, a dor na cabeça latejando. Mas a dor no meu coração era pior. O relógio da minha mãe, a última lembrança dela, estava quebrado aos meus pés. Pedaços de vidro brilhavam como lágrimas no mármore.
"Peça desculpas ao Ricardo. Agora," Ana Paula ordenou, pairando sobre mim.
Eu olhei para ela, a visão turva.
"Eu... não fiz nada."
"Você o machucou! Olhe o pulso dele! Ele é o pai do meu filho, e você o agrediu! Peça desculpas, ou juro por Deus, José Carlos, você vai se arrepender."
Eu já tinha me desculpado tantas vezes. Por crimes que não cometi, por traições que ela cometeu. Para manter a paz. Para manter a fachada do nosso casamento. Mas não mais.
"Deixe-me ir," eu sussurrei, a única coisa que eu queria no mundo.
Ricardo, no entanto, não tinha terminado. Ele olhou para o relógio quebrado no chão.
"Eu ainda o quero. Mesmo quebrado."
"Você ouviu, José Carlos? O mínimo que você pode fazer é dar a ele o que ele quer, depois de tê-lo machucado."
Eu fechei os olhos.
"Leve. Fique com tudo. Eu só quero ir embora. Eu te dou tudo o que quiser, Ana Paula, minhas ações na empresa que herdei, tudo. Apenas me dê o divórcio e me deixe sair daqui."
A menção do divórcio novamente a irritou. Seu rosto se contraiu.
"Você ainda está com essa besteira na cabeça? Você não vai a lugar nenhum."
Ricardo começou a gemer, segurando o pulso como se estivesse mortalmente ferido.
"Ana, meu pulso dói tanto... E se infeccionar? Pode ser perigoso para o bebê se eu ficar doente."
Era uma atuação patética, mas Ana Paula caiu nela completamente.
"Meu Deus, você tem razão! Seguranças!" ela gritou. "Segurem ele! Vamos para o hospital."
"O quê? Não! Eu estou ferido!" protestei, sentindo o sangue começar a escorrer pela parte de trás da minha cabeça.
Mas eles me ignoraram. Os seguranças me agarraram pelos braços, me levantando do chão à força.
"Você vai para o hospital," disse Ana Paula, com uma frieza assustadora em sua voz. "Você vai se certificar de que Ricardo receba o melhor tratamento."
Eles me arrastaram para fora de casa e me jogaram no banco de trás de um dos carros. Ana Paula e Ricardo sentaram-se na frente. No hospital, Ricardo foi levado imediatamente, enquanto eu fui deixado esperando no corredor, com a cabeça sangrando.
Depois de uma hora, Ana Paula voltou com um médico.
"Ricardo tem um arranhão feio. O médico disse que há uma pequena chance de infecção," ela anunciou, como se fosse uma tragédia nacional. "E você o causou."
Eu a encarei, incrédulo.
"Ana Paula, eu estou com a cabeça sangrando. Eu preciso de pontos."
Ela me ignorou.
"Ricardo está muito abalado. Ele precisa de uma compensação pelo trauma que você causou. E pela dor."
Ela se virou para o médico.
"Doutor, eu quero que você prepare meu marido para uma cirurgia."
O médico parecia confuso.
"Cirurgia? Para quê?"
"Eu quero que você remova um dos rins dele," ela disse, com a mesma naturalidade com que pedia seu café. "Para compensar o sofrimento de Ricardo."
O queixo do médico caiu. Eu senti meu sangue gelar.
"Senhora, isso é... isso é impossível. É antiético. Eu não posso remover um órgão saudável de uma pessoa para... para compensar um arranhão!"
"Você pode e você vai," disse Ana Paula, sua voz baixando para um silvo perigoso. "Ou eu vou garantir que este hospital, que minha família financia, se torne uma clínica de esquina esquecida. Você entendeu?"
O médico empalideceu, olhando de mim para ela.
"Mas... por quê? Um rim?"
"Ricardo perdeu uma gota de sangue. Meu marido vai dar um órgão. Olho por olho. É justo."
Ela sorriu, um sorriso que não tinha nada de humano.
"Além disso, estou grávida. O estresse não é bom para o bebê. E ver Ricardo sofrer me estressa. Então, na verdade, você está fazendo isso pelo meu filho. É um ato nobre."
Eu estava em choque, incapaz de formar palavras. Ela estava louca. Completamente louca.
O médico, vendo a determinação assassina em seus olhos, cedeu.
"Preparem o paciente," ele murmurou para uma enfermeira, evitando meu olhar.
Eles me levaram para uma sala, me colocaram em uma maca. Eu não lutei. Eu não tinha mais forças. Eu só queria que tudo acabasse.
Enquanto a anestesia começava a fazer efeito, a última coisa que vi foi o rosto de Ana Paula, me observando com uma satisfação fria.
"Isso é por ter me desobedecido, José Carlos," ela sussurrou. "Aprenda seu lugar."
Senti a picada da agulha, e depois, a escuridão. Mas mesmo na inconsciência, senti o corte. Senti uma parte de mim sendo roubada.
Quando acordei, a dor era imensa. Mas a humilhação era maior. Em outra sala, Ricardo estava sendo mimado e cuidado por um arranhão. E eu... eu tinha sido violado da maneira mais profunda possível.
Através da porta entreaberta, ouvi a voz de Ricardo.
"Eca, você realmente tirou o rim dele? Que nojo. Eu não quero isso. Jogue fora."
Ouvi a enfermeira ofegar.
"Mas... senhor, seu marido... ele deu um órgão por você."
"E daí? Eu não pedi por isso. Eu só queria o relógio. Agora, tire essa coisa nojenta da minha vista."
A enfermeira, chocada, gaguejou: "O que... o que devemos fazer com ele?"
A voz de Ana Paula soou, clara e fria.
"Joguem no lixo hospitalar. Obviamente."
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