
A Mentira Por Trás do Berço
Capítulo 3
Dois dias depois, recebi alta do hospital.
A viagem para casa foi silenciosa. Leo conduzia, os seus nós dos dedos brancos no volante. Eu olhava pela janela, as ruas a passarem desfocadas.
A nossa casa parecia estranha, fria.
Assim que entrámos, o Sr. Matias saiu da sala de estar. O seu rosto era uma máscara de preocupação solene.
"Inês, bem-vinda a casa. Como te sentes?"
"Estou bem," menti.
Sofia correu para o pai, abraçando-lhe as pernas. "Papá!"
Leo pegou nela, o seu rosto finalmente a suavizar-se com um sorriso genuíno. Foi o primeiro sorriso que vi nele em dias.
"Olá, minha princesa. Portaste-te bem com o avô?"
"Sim!" ela disse alegremente. Depois, ela olhou para mim por cima do ombro do Leo. Os seus olhos eram grandes e curiosos.
"Inês, a tua barriga desapareceu," disse ela.
Senti um aperto no peito.
Antes que eu pudesse responder, o Sr. Matias interveio. "Sofia, querida, a Inês está muito cansada. Porque não vais para o teu quarto e brincas um pouco?"
Ele guiou-a para longe, lançando-me um olhar de aviso.
Leo colocou a Sofia no chão e ela correu para o quarto. Ele virou-se para mim.
"Vou preparar-te um chá."
Ele foi para a cozinha. Segui-o, precisando de quebrar o silêncio sufocante.
"Leo, precisamos de falar sobre o que aconteceu."
Ele parou de encher a chaleira, de costas para mim. "Não há nada para falar. Foi um acidente. Acabou."
"Não acabou para mim!" A minha voz subiu. "Perdemos o nosso filho, Leo! O nosso filho!"
Ele virou-se lentamente, os seus olhos frios. "E o que queres que eu faça? Queres que eu chore e grite? Isso vai trazê-lo de volta?"
Fiquei chocada com a sua crueldade. "Quero que sintas alguma coisa! Estamos nisto juntos."
"Eu sinto," disse ele, a sua voz baixa e perigosa. "Sinto raiva por teres sido tão descuidada."
"Descuidada?" repeti, incrédula. "Um condutor bêbado atingiu-nos!"
"Talvez se não estivesses sempre a insistir para irmos a mais um check-up, a mais um exame, nada disto teria acontecido!"
As suas palavras eram como bofetadas.
"Eu só queria ter a certeza de que ele estava bem," sussurrei, as lágrimas a arderem-me nos olhos.
"Bem, não estava, pois não?" ele retorquiu.
Naquele momento, o Sr. Matias voltou a entrar na cozinha.
"Leo, acalma-te. A Inês acabou de sair do hospital. Ela não precisa deste stress."
Leo passou por mim, esbarrando no meu ombro. "Preciso de apanhar ar."
A porta da frente bateu com força.
Fiquei ali, a tremer, enquanto o Sr. Matias me observava com uma expressão que não consegui decifrar. Não era simpatia. Era... avaliação.
"Inês," disse ele calmamente, "o Leo está apenas a sofrer à sua maneira. Ele amava muito aquele bebé. Ele queria um filho mais do que tudo."
As suas palavras pareciam ensaiadas.
"Ele está a culpar-me," disse eu, a voz embargada.
O Sr. Matias suspirou. "Ele não está a culpar-te. Ele está apenas magoado. Todos nós estamos. Mas agora, a nossa prioridade tem de ser a Sofia. Ela já perdeu uma mãe. Não pode passar por mais traumas."
Ele estava a dizer-me, de uma forma não tão subtil, para engolir a minha dor. Para pôr as necessidades da Sofia acima das minhas.
Para fingir que o meu próprio filho nunca existiu.
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