
A Mentira no Coração do Hospital
Capítulo 2
Quando abri os olhos, o teto branco do hospital foi a primeira coisa que vi.
O cheiro de desinfetante enchia o ar, um cheiro que eu odiava.
O meu marido, Pedro, estava ao lado da cama, a descascar uma maçã com uma faca pequena, com a cabeça baixa e uma concentração que ele nunca me dedicou.
A lâmina movia-se lenta e cuidadosamente, a casca da maçã a cair numa espiral contínua e perfeita.
"Acordaste, Inês?"
A sua voz era suave, mas soava distante, como se viesse de outro mundo.
"Onde está o nosso filho?" perguntei, a minha voz rouca e fraca.
Pedro parou o que estava a fazer. Ele não me olhou, continuou a encarar a maçã meio descascada na sua mão.
"O médico disse que o bebé nasceu prematuro, o coração dele era muito fraco."
Ele fez uma pausa, colocou a faca e a maçã no prato ao lado.
"Ele não sobreviveu."
As suas palavras foram calmas, demasiado calmas. Não havia dor na sua voz, apenas uma constatação de um facto.
O meu mundo desabou. O ar nos meus pulmões desapareceu. A dor no meu abdómen da cesariana não era nada comparada com o vazio que se abriu no meu peito.
Lágrimas escorreram pelo meu rosto, silenciosas e quentes.
Eu tinha carregado aquele bebé durante oito meses, senti-o a mexer-se, a chutar. Ele era real. Ele era o nosso filho.
"Porque é que não o salvaste?" a minha voz saiu como um sussurro quebrado. "Tu és médico, Pedro. Tu podias tê-lo salvo."
Finalmente, ele levantou a cabeça e olhou para mim. Os seus olhos estavam frios, sem qualquer emoção.
"Inês, eu fiz o que pude. Mas a Eva estava em trabalho de parto ao mesmo tempo, na sala ao lado. A situação dela era muito mais crítica. O bebé dela estava em perigo."
Eva. A sua ex-namorada. A mulher que ele nunca esqueceu.
"Então escolheste-a a ela," afirmei, sem fazer uma pergunta. A verdade atingiu-me com a força de um soco. "Tu escolheste salvar o filho dela em vez do nosso."
"Não sejas irracional," ele disse, o seu tom a ficar mais duro. "Eu sou médico. Tive de tomar uma decisão profissional. A Eva e o bebé dela precisavam de mim."
"E eu? E o teu filho? Nós não precisávamos de ti?"
O meu telemóvel na mesa de cabeceira vibrou. Era uma mensagem da minha sogra, a mãe do Pedro.
"Inês, querida, soube do que aconteceu. Sinto muito. Mas graças a Deus o Pedro estava lá para salvar o pequeno Lucas. Ele é o primeiro neto da nossa família. Estamos todos tão felizes."
Lucas. O nome do filho da Eva. O primeiro neto da família deles.
O meu filho, que nem sequer teve a oportunidade de ter um nome, não era nada.
Um riso amargo escapou-me. Então era assim. Eu e o meu filho éramos o sacrifício necessário para a felicidade deles.
"Pedro," eu disse, a minha voz surpreendentemente firme. "Quero o divórcio."
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