
A Mentira da Amnésia Dele: Minha Vida Roubada
Capítulo 2
Ponto de Vista: Atena
Desliguei o telefone, meu polegar pairando sobre o nome de Léo por um segundo a mais antes de bloquear a tela. Limpei os rastros de lágrimas remanescentes das minhas bochechas com as costas da mão e forcei meu corpo a se mover.
Rastejei de volta para a cama, puxando os cobertores até o queixo, minha mente correndo a mil por hora enquanto meu corpo parecia estar envolto em chumbo. Eu tinha que parecer normal. Tinha que ser a mesma Atena confiante e ingênua que ele havia cultivado com tanto cuidado.
Uma batida suave na porta soou antes que ela se abrisse. Heitor estava lá, silhuetado pela luz do corredor. Ele estava impecavelmente vestido em um terno sob medida, seu cabelo escuro perfeitamente penteado. Ele parecia em todos os aspectos o CEO carismático. Em todos os aspectos, o mentiroso.
"Atena, querida", disse ele, sua voz uma carícia quente e gentil. "Você está se sentindo bem? Tenho a estreia da nova iniciativa de caridade da Moraes Dynamics hoje à noite. Esperava que você viesse comigo."
Um tremor percorreu meu corpo. Mordi o interior da minha bochecha, com força, a dor aguda me ancorando. Eu tinha que me controlar.
"Estou apenas um pouco cansada", murmurei no travesseiro, minha voz grossa de sonolência fingida.
"Não vai demorar", ele insistiu, sentando-se na beirada da cama. Sua mão pousou no meu cabelo, seu toque uma marca tóxica contra minha pele. "É importante. Por favor?"
"Ok", sussurrei, a única palavra parecendo uma traição à raiva que gritava dentro de mim.
Uma hora depois, o carro parou em frente a uma galeria de arte moderna e ampla. A entrada era ladeada por fotógrafos e repórteres, suas câmeras piscando como um enxame de vaga-lumes.
E no topo da escada, banhada pelas luzes brilhantes, estava Carina. Ela usava um deslumbrante vestido escarlate que se agarrava a cada curva sua, um sorriso triunfante brincando em seus lábios.
Meu sangue gelou. Meu corpo ficou completamente rígido quando Heitor saiu e abriu minha porta.
"Heitor, você conseguiu!" Carina chamou, deslizando pelos degraus em nossa direção.
"Carina, você está deslumbrante", disse Heitor, seus olhos a devorando. Ele se virou para mim, seu sorriso não alcançando totalmente os olhos. "Atena, esta é Carina Sampaio, nossa nova diretora criativa. Carina, esta é Atena Reis."
Levei cada grama do meu autocontrole para não recuar.
Os olhos de Carina, de um azul frio e calculista, percorreram meu vestido simples com desdém. "É um prazer finalmente conhecê-la, Atena. Heitor me falou tanto sobre você." Ela entrelaçou o braço no dele. "Sabe, você parece um pouco pálida. Por que não vai se trocar por algo mais... apropriado? Temos um camarim preparado."
Antes que eu pudesse protestar, Heitor estava me guiando gentilmente para uma porta lateral. "Ela está certa, você parece um pouco abatida. Vá em frente."
O camarim era pequeno e opulento. Um cabideiro de vestidos de grife estava no canto. Fui empurrada para dentro, a porta se fechando com um clique atrás de mim. Um vestido, uma peça complicada de sedas e lantejoulas, estava estendido sobre uma chaise de veludo. O zíper era intrincado, impossível de manusear com uma mão.
A porta se abriu novamente. Carina entrou, um sorriso de escárnio brincando em seus lábios. Ela fechou a porta e se encostou nela, cruzando os braços.
"Não perca seu tempo", disse ela, sua voz baixando para um sussurro venenoso. "Você não é bem-vinda aqui. Ele é meu, Atena. Sempre foi."
"Não vou lutar com você por ele", eu disse, minha voz surpreendentemente firme. As palavras tinham gosto de cinzas na minha boca, mas eram verdadeiras.
Memórias da faculdade voltaram. Discutindo com o reitor, apresentando minhas anotações meticulosas e rascunhos iniciais, apenas para ouvir que não havia prova definitiva de que Carina havia roubado meu trabalho. Eu lutei naquela época. Não me levou a lugar nenhum.
"Bom", Carina ronronou, afastando-se da porta. Ela caminhou em minha direção, seus saltos clicando ominosamente no chão de mármore. "Fico feliz que nos entendemos. Aqui, deixe-me ajudá-la com isso."
Ela estendeu a mão para trás de mim, seus dedos roçando o zíper. Eu me tencionei, um senso primal de perigo arrepiando os pelos dos meus braços.
De repente, uma dor lancinante subiu pelo meu braço. Carina havia agarrado meu pulso direito, seus dedos cravando na carne cicatrizada e sensível. Ela torceu, um movimento cruel e deliberado.
Um grito de dor escapou dos meus lábios. "Pare! Você está me machucando!"
Agarrei a mão dela, tentando arrancar seus dedos do meu pulso. A dor era cegante, uma agonia branca e quente que irradiava do meu pulso até o meu ombro.
A cortina do camarim foi arrancada.
Heitor estava lá, seu rosto uma máscara de confusão que rapidamente se transformou em raiva. "Atena! O que diabos você está fazendo?"
Seus olhos estavam fixos na minha mão agarrando a de Carina.
Carina imediatamente desabou contra ele, seu rosto se contorcendo em uma máscara de dor. "Heitor", ela choramingou, embalando a própria mão. "Ela... ela me atacou. Eu só estava tentando ajudá-la com o vestido, e ela agarrou meu pulso. Acho que está quebrado."
O rosto de Heitor escureceu. Ele olhou para mim, seus olhos frios e duros. "Peça desculpas a ela. Agora."
"O quê? Não!" protestei, embalando meu próprio pulso latejante. "Ela está mentindo! Foi ela quem me machucou!"
"Não seja ridícula", Heitor retrucou, sua voz perigosamente baixa. "Carina não machucaria uma mosca. Eu a conheço há anos. Ela é a pessoa mais gentil que conheço. Agora, pare de fazer cena e peça desculpas."
Meu mundo inclinou. A manipulação era tão descarada, tão absoluta, que me deixou sem fôlego.
Carina, sempre a atriz, enxugou os olhos secos. "Está tudo bem, Heitor. Talvez ela só não esteja se sentindo bem." Ela olhou para mim, um brilho de triunfo em seus olhos. "Mas o colar de pérolas vintage da minha mãe... foi um presente. Eu o tirei antes de entrar aqui. Você poderia pegá-lo para mim na vitrine principal da galeria? Eu me sentiria muito melhor se o tivesse."
A expressão de Heitor suavizou instantaneamente ao olhar para ela. "Claro, querida. Qualquer coisa por você." Ele nem sequer olhou para mim.
Seu olhar voltou para mim, gélido e autoritário. "Vá buscá-lo."
Meu coração parecia um peso de chumbo no peito. Virei-me sem dizer uma palavra e saí para as luzes ofuscantes da galeria. O colar estava exposto em uma caixa de vidro. Pedi entorpecidamente a um atendente para pegá-lo.
Ao pegar o delicado fio de pérolas, minha mão, enfraquecida pela nova onda de dor, tremeu. O colar escorregou por entre meus dedos. Ele atingiu o chão polido com um baque nauseante, espalhando pérolas como pequenos dentes quebrados pelo mármore.
Carina ofegou dramaticamente. "O colar da minha mãe! Atena, como você pôde ser tão desastrada?"
"Me desculpe, eu..."
"Desculpe?" ela zombou, já se virando para Heitor, seu lábio inferior tremendo. "Heitor, eu acho... acho que quero ir para casa. Esta noite está arruinada."
Heitor envolveu um braço protetor ao redor dela. Seu olhar para mim poderia ter congelado o fogo. "Esta é uma noite importante para a empresa, Atena. Carina é nossa convidada de honra. Peça desculpas e depois pegue cada uma dessas pérolas."
Eu o encarei, minha mente girando. Este era o homem que havia prometido passar a vida me protegendo.
"Heitor, ela fez isso de propósito", sussurrei, minha voz quebrando.
"Chega", ele ordenou. "Peça desculpas."
Derrotada, murmurei um "me desculpe" oco e me ajoelhei, meus joelhos protestando contra o chão duro. Meus dedos, desajeitados pela dor e humilhação, se atrapalharam para juntar as pequenas esferas rolantes.
Uma picada aguda no meu dedo me fez silvar. Um caco de vidro, provavelmente de uma taça de champanhe quebrada, havia se alojado na ponta do meu dedo. Uma pequena gota de sangue brotou, vermelho-rubi contra minha pele pálida.
Olhei para Heitor, um apelo silencioso em meus olhos. Ele estava olhando para minha mão, sua expressão indecifrável por um breve momento. Ele viu o sangue.
Mas ele permaneceu em silêncio.
"Argh, não suje as pérolas de sangue", disse Carina, torcendo o nariz com nojo. "Sabe de uma coisa, apenas deixe-as aí. Heitor, querido, você pode simplesmente me comprar um novo, não pode?"
"Claro, meu amor", disse Heitor instantaneamente, sua voz quente novamente. Ele se virou para mim, seu tom voltando a ser congelante. "E você ficará aqui e limpará essa bagunça. Não saia até que cada pedaço de vidro tenha sumido."
Meu próprio sangue parecia frio em minhas veias. "Eu entendo", murmurei, minha voz mal um sussurro. A luz em meus olhos finalmente, completamente, se apagou.
Ele não disse mais uma palavra. Ele simplesmente se virou, seu braço ainda em volta dos ombros de Carina, e se afastou, me deixando de joelhos em um mar de promessas quebradas.
Um nó se formou na minha garganta, tão apertado que parecia que eu estava sufocando. A dor no meu pulso, na minha mão, nos meus joelhos — não era nada comparada à agonia que rasgava meu coração.
Isso não era amor. Era uma jaula. E eu finalmente tinha visto as grades.
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