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A Melodia de Ária

Ária Garcia prioriza sua independência e evita vulnerabilidades após o divórcio. Fred Almeida, bem-sucedido e avesso a compromissos, prefere relações sem sentimentos. O destino os une quando Ária, fugindo do ex-marido, beija o desconhecido Fred. O que era uma encenação desperta uma química incontrolável. Entre seduções e conflitos internos, eles desafiam suas próprias regras e descobrem que o amor pode surgir mesmo quando tentam manter o controle emocional.
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Capítulo 3

O bar respirava magia naquela noite. As luzes douradas dos lustres de cristal

dançavam sobre as paredes de tijolo aparente, enquanto velas em castiçais prateados

cintilavam no centro das mesas de madeira, envoltas em toalhas de linho cor de vinho.

Arranjos de flores brancas e rosas bordô pendiam discretamente sobre o balcão de

mármore, onde garrafas de champanhe reluziam como tesouros. No canto, o velho piano do

meu avô aguardava silencioso, como um guardião das memórias que aquelas paredes

guardavam. Ele preferiu não vir à festa. Quase não sai mais de casa, exceto pela rotina

diária de vir ao bar por pelo menos uma hora antes de abrirmos para tocar seu velho piano.

Temos um piano elétrico super moderno em casa, que ele se recusa a tocar.

A música suave do violoncelo ecoava pelo ambiente, misturando-se ao burburinho

dos convidados. Familiares próximos e amigos sorriam, abraçando Gabriel e Sofia,

felicitando-os pelo noivado, cujos rostos brilhavam mais que as estrelas do verão. Eu

observava toda a movimentação, de longe, apoiada na coluna de madeira próxima ao

piano. Meus dedos tamborilavam contra a madeira, num ritmo nervoso e sem motivo. A

festa era um sucesso. Tudo corria muito bem e meu melhor amigo era só sorrisos.

"Ele está aqui." Sussurrei pra mim mesma, olhos fixos em Fred, que conversava com

um tio de Sofia perto da estante de vinhos. Eu estive tão ocupada com os afazeres da festa

que ainda não havia me dado conta de sua presença. De terno cinza chumbo, ajustado ao

corpo, tinha uma lapela de cetim, camisa branca, colete combinando com o paletó e uma

gravata cinza texturizada, os cabelos levemente despenteados como sempre, parecia ter

saído de um sonho antigo. Cada gesto seu parecia calculado, porém natural, como se a

elegância fosse parte de seu DNA. Quando riu de algo que o tio disse, o som rouco e

quente me fez segurar a respiração.

"Aí está nossa anfitriã!" Gabriel surgiu ao meu lado, o sorriso largo como de uma

criança. "Muito obrigado, minha querida amiga, por esta linda noite! Não precisava de tudo

isso e nem ter fechado o bar por causa do nosso noivado. Sei que isso deve ter tido o dedo

de Fred e peço desculpas por isso. Ele é muito cuidadoso com a segurança de Sofia e

agora, com a minha também." Ele olhou em volta. "Caramba, Ária! Está tudo... perfeito!"

Seus olhos estavam brilhantes de emoção. Eu o abracei com força, sentindo o cheiro do

seu perfume cítrico, tão familiar.

"Você merece mais que isso. O vovô está orgulhoso de você. Ele não veio porque...

você sabe." Ele segurou minhas mãos e apertou de leve. "Fico feliz que você esteja feliz. Te

amo muito, meu amigo!"

Gabriel segurou meu rosto, seus dedos acariciando minhas bochechas.

"Foi aqui que eu aprendi que família não é só sangue. Você e seu avô salvaram

minha vida. Você é e sempre será minha família. Eu também te amo." Os olhos dele

piscaram para o piano, onde adolescentes, nós dois desafinávamos enquanto o vovô ria e

corrigia nosso dedilhado.

Sofia aproximou-se, o vestido champanhe fluindo como seda.

"Está tudo perfeito, Ária! Obrigada. Por tudo." Sua voz suave, mas os olhos

perspicazes pousaram em Fred, depois em mim novamente. "Fred está mais animado hoje.

Quase humano." Sorriu, deixando a frase pairar como um convite para uma confissão

qualquer. Engoli seco tentando disfarçar meu encantamento por ele.

"Ele... parece estar se divertindo." Comentei com meus olhos pousados nele.

"Sim. Ele parece diferente. Não é muito comum ver meu irmão tão sorridente. Ele

está sempre tenso e ocupado com seu trabalho e conosco." Sofia tirou os olhos de seu

irmão e olhou para mim por alguns segundos em silêncio, como que se dando tempo para

arrumar seus pensamentos. "Mas parece que você o faz sorrir mais que o normal." Ela

sorriu e apertou os olhos. "Cuidado ou vou ficar com ciúmes." Ela me deu uma piscadinha

que fez meu coração dar um salto. Antes que eu pudesse responder, Sofia e Gabriel foram

puxados por uma pessoa para fotos. Senti meu coração acelerado. Por que Sofia disse

aquilo? Será que eu estou dando muita bandeira? Ou será que ele comentou alguma coisa

com ela? Por que estou reagindo assim? Não quero me envolver com ninguém e ele já

deixou bem claro que também não quer. Fingi tirar uma mancha inexistente da madeira do

piano tentando me acalmar. Quando levantei os olhos, Fred estava diante de mim,

segurando duas taças de vinho tinto.

"Pra você." Ele me entregou uma taça, seus dedos roçando levemente os meus. O

toque foi rápido, mas suficiente para fazer meu pulso formigar.

"Obrigada." Minha voz saiu mais áspera do que o normal. Ele inclinou a cabeça, me

observando. Ele não quer nenhum relacionamento, mas tudo que ele faz é extremamente

sedutor. Resta saber se esse flerte constante, esse ato contínuo de sedução é mesmo pra

mim ou ele é assim com todas as mulheres. Não o conheço tempo suficiente para

responder essa questão e não posso perguntar isso pra Sofia, que já parece desconfiar de

alguma coisa.

"Gabriel me contou que você reformou o bar sozinha. Mantendo a alma do lugar,

mas modernizando. Impressionante." Isso significa que ele e Gabriel conversam sobre mim.

O que mais ele conseguiu descobrir nessa conversa?

"Meu avô sempre diz que mudanças são importantes, mas que essências precisam

ser conservadas." Meus olhos fugiram para o piano. Fred seguiu meu olhar.

"Ele estava tocando aqui naquele dia... Gabriel me disse que você também toca.

Que vocês aprenderam juntos." Ri, envergonhada.

"Mal. Meus dedos são mais hábeis com copos do que com as teclas de piano. O

Gabriel toca melhor que eu."

"Duvido." Ele deu um gole no vinho, seus olhos fixos nos meus. "Tenho certeza que

você é boa em tudo que faz."

O violoncelo parou, e por um segundo, apenas o tilintar de taças e risos

preencheram o ar. Mas os olhos dele continuaram fixos em mim e o mundo pareceu

desacelerar. Um silêncio pairou sobre nós e todos desapareceram. Por um momento

éramos só ele e eu.

"Fred!" Uma voz nos trouxe de volta a realidade e ele piscou, recuando.

"Precisamos de você para o brinde! Ária, você também!" Gritou Miguel, o irmão de

Gabriel, acenando para nós. Fred assentiu para Miguel, em seguida virando-se para mim.

"Vamos!" Ele estendeu a mão pra mim, e por alguns segundos eu simplesmente não

podia me mover.

A festa seguiu em risos, brindes e histórias embaraçosas de Gabriel e Sofia. Quando

o último convidado partiu. Desabei na cadeira, os pés doloridos. Eu os libertei dos sapatos

cruéis de saltos altos e respirei fundo aliviada. A equipe recolhia copos, louças e enfeites. O

silêncio começava a se instalar.

Caminhei até o piano e comecei a dedilhar uma de minhas músicas preferidas, The

Way You Look Tonight, de Jerome Kern. Uma das músicas que meu avô me ensinou a

gostar. Me peguei cantarolando a letra baixinho enquanto executava a melodia no piano.

Quando terminei a música, alguns garçons aplaudiram. Já fazia algum tempo que não

tocava. Fechei o piano e já ia me levantar quando uma música começou a tocar, vinda do

celular de alguém. Nothing Else Matters.

"Última dança?" Era Fred, de mangas arregaçadas, sem o paletó, os três primeiros

botões da camisa desabotoados. Estendia a mão, vulnerável, como se estivesse com medo

de ser rejeitado. Olhei pra mão dele, depois para seus olhos.

"Eu não danço."

"É só me acompanhar." A mão continuava esticada, me aguardando. Ele sorriu sem

reservas e eu me derreti por dentro. Nossas mãos se encontraram e ele me puxou pra junto

do seu corpo.

"Finalmente." Uma voz ecoou na minha cabeça

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