
A matilha perdida
Capítulo 3
Ponto de vista de Paige:
A viagem, que deveria durar quatro horas, acabou levando um pouco mais por conta da minha dificuldade em seguir instruções simples do GPS. Quando enfim cruzamos a entrada da nova cidade, senti uma onda de tranquilidade me invadir.
Reduzindo a velocidade, sorri ao ver a placa rústica de madeira que dizia "Bem-vindos a Cinderwood".
"Chegamos", anunciei para Jax, que rapidamente virou o rosto para a janela, curioso com nosso novo lar.
"Onde está a tia Pops?", indagou ele.
"Acho que já está na nossa nova casa, nos esperando", respondi.
Dirigi devagar pelas ruas acolhedoras da cidade, apreciando as casas com arquitetura clássica e os caminhos bem cuidados. Apontei para um parque e uma escola pequena para Jaxon, que se animou com a ideia de fazer novos amigos.
Assim que chegamos à casa modesta que aluguei, avistei Poppy e sua amiga Annie nos aguardando na varanda, já que havíamos combinado que ela buscaria as chaves diretamente com o proprietário.
"Tia Pops!", gritou Jaxon com empolgação assim que abri a porta do carro.
"Ei, meu pequeno J, que saudade!", respondeu Poppy, aproximando-se para ajudá-lo a sair e puxando-o para um abraço apertado.
"Ei! Vai me esmagar", Jaxon riu enquanto tentava se soltar dela.
"Vamos, estou ansiosa para te mostrar seu novo quarto", disse ela, me abraçando rapidamente antes de levá-lo para dentro.
Fiquei observando os dois entrarem e me recostei no carro, tentando absorver tudo aquilo. Respirei fundo. A floresta densa atrás da nova casa preenchia o ambiente com o aroma fresco dos pinheiros. O sol brilhava, os pássaros cantavam, e algo dentro de mim dizia que aquele lugar seria especial. Nunca tinha estado ali antes, mas era como se eu finalmente estivesse voltando para casa.
"Mamãe, vem ver!", Jaxon chamou da porta, acenando com entusiasmo para que eu entrasse.
Retribuí o aceno e fui até a parte de trás do carro, pegando nossas malas antes de levá-las para dentro. A casa estava limpa e já transmitia uma sensação acolhedora. As paredes, em um tom suave de magnólia, pareciam uma tela em branco, prontas para receber nossa personalidade. Teríamos seis meses de período experimental antes de podermos decorar, como solicitado pelo proprietário, o que nos daria tempo suficiente para planejar com calma.
Subi atrás de Jaxon, que me mostrou seu novo quarto cheio de empolgação. O dele ficava na parte da frente da casa, um pouco menor que o meu, que ficava do outro lado do corredor. Ambos tinham uma cama de casal, e Jax logo se jogou na sua, todo animado.
"Gostou do seu novo quarto?", perguntei enquanto ele pulava animadamente sobre o colchão.
"Eu adorei! É bem maior do que o meu antigo e essa cama é enorme."
"O que acha de começarmos a guardar suas roupas enquanto a mamãe e a tia Pops trazem o restante?", Annie sugeriu, e Jaxon concordou rapidamente.
"Muito obrigada", agradeci Annie com um sorriso sincero, antes de levar a segunda mala até meu quarto.
Coloquei a mala ao lado do guarda-roupa e parei diante da janela por um instante. A vista era deslumbrante. Havia um pequeno jardim e, logo após, uma imensidão de árvores. Escolhi esse quarto justamente pela vista e pelo assento na janela, pois parecia ser o lugar perfeito para ler um bom livro.
"É maravilhoso, não é?", Poppy comentou, sentando-se ao meu lado.
"Eu adorei. Obrigada por isso. Acho que foi a melhor ideia que você já teve", falei, cutucando seu ombro de forma brincalhona.
"Você vai ficar bem, Paige. De qualquer forma, Greg nunca foi bom o bastante pra você, e J vai se adaptar bem aqui. Eu sinto isso. Além disso, os homens dessa cidade são lindos. Juro que tem algo na água daqui. Todos que vi até agora parecem modelos de academia. E pelo visto, essa academia deve ser ótima", comentou ela, sorrindo.
"Estou farta dos homens", respondi, balançando a cabeça em negativa.
"Como assim? Agora você se interessa por mulheres? Também vi algumas mulheres maravilhosas por aqui", ela afirmou, arqueando as sobrancelhas com um sorriso provocador.
"Não se trata disso, só não quero mais saber de relacionamentos. Só servem para machucar. A partir de agora, será apenas Jaxon e eu", declarei com firmeza.
"Você mal teve chance de tentar. Teve apenas dois namorados a vida toda. Mamãe sempre dizia que, às vezes, é preciso beijar alguns sapos antes de encontrar o príncipe encantado. Você não pode simplesmente desistir", disse ela, apertando minha mão com carinho.
"Ryder não era um sapo."
"Não... ele era só um fantasma do passado. Esqueça ele e também Greg. Seu verdadeiro príncipe vai aparecer no momento certo. Agora, chega de drama, pois temos malas para desfazer", disse ela, batendo palmas com energia.
Soltei um suspiro e me levantei para acompanhá-la, mas algo se moveu do lado de fora da janela e capturou minha atenção. Aproximei-me do vidro, tentando entender o que acabara de cruzar por entre as árvores. Independentemente do que fosse, era grande e veloz. Talvez pudesse ser um cervo… ou o cachorro enorme de algum vizinho? Por fim, dei de ombros e desci para buscar o restante da bagagem.
Na hora do jantar, já havíamos terminado de guardar tudo.
Como havíamos passado no mercado para abastecer a casa com os itens mais necessários, Poppy e Annie ficaram para jantar conosco antes de retornarem aos dormitórios da faculdade. Ofereci carona, mas como Jaxon já havia adormecido, elas preferiram pedir que um amigo viesse buscá-las.
A universidade ficava a cerca de vinte minutos dali, e senti alívio por poder estar novamente perto da minha irmã. Eu detestava a distância que nos separava antes.
Depois de um dia tão puxado e cheio de reviravoltas, preparei um chá de camomila e me acomodei no assento da janela para ler um pouco antes de dormir. Eu precisava desacelerar e recarregar as energias para o dia seguinte.
Ainda não sabia se estava realmente lidando com o fim do relacionamento ou se a ficha ainda não havia caído, pois, apesar da dor, não me sentia tão arrasada quanto imaginara. Talvez fosse algo no ar dessa cidade? Ou talvez eu nunca tivesse amado Greg de verdade.
Em algum momento, devo ter adormecido, porque um som abrupto me despertou e meu leitor digital despencou no chão com um baque seco. O ruído parecia um lamento… ou um uivo distante de sofrimento. Verifiquei rapidamente Jaxon, que continuava dormindo tranquilo, e ignorei o som, presumindo que fosse algum animal da floresta, antes de pegar meu leitor digital.
De repente, os pelos da minha nuca ficaram arrepiados, e uma sensação incômoda tomou conta de mim, como se alguém me observasse. Meus olhos se voltaram instintivamente para a janela, mas a escuridão era espessa demais para enxergar qualquer coisa. Fechei as cortinas rapidamente, tentando convencer a mim mesma de que era apenas o nervosismo de estar em um lugar novo.
Revisei cada porta e janela, certificando-me de que estavam devidamente trancadas, antes de me deitar. Talvez por causa do livro que eu estava lendo, passei a noite sonhando com lobos correndo pela floresta, como se estivessem brincando de caçar uns aos outros.
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