
A Maldição do Amor Roubado
Capítulo 2
Eu sempre acreditei que era amaldiçoada, que alguma força sombria me seguia, determinada a me tirar tudo e todos que eu amava.
Não era um pensamento dramático de uma jovem, era uma constatação fria, baseada em fatos.
Primeiro, perdi meus pais em um acidente de carro quando eu ainda era uma adolescente, um evento que me deixou à deriva em um mundo que de repente se tornou silencioso e cinza.
Fui criada por parentes que me viam mais como um fardo do que como família, suas gentilezas eram raras e sempre vinham com um preço.
A única luz em toda essa escuridão era Sofia.
Sofia não era apenas minha melhor amiga, era minha irmã, minha alma gêmea, a única pessoa que me entendia sem que eu precisasse dizer uma palavra.
Ela me acolheu, me defendeu, e me mostrou que a vida ainda podia ter cor.
Até que a maldição a encontrou também.
Um acidente de carro, disseram. Fatal.
No dia do funeral de Sofia, o mundo desabou pela segunda vez, mas desta vez foi diferente, foi mais sujo, mais violento.
Eu estava no quarto de hóspedes da casa dos pais dela, tentando respirar em meio à dor que me sufocava, quando Ricardo entrou.
Ricardo era o namorado de Sofia, um empresário do ramo imobiliário, bonito, charmoso e, como eu viria a descobrir, um monstro.
Ele me encontrou ali, vulnerável e quebrada, e em vez de oferecer consolo, ele tirou de mim a última coisa que eu ainda possuía: minha dignidade.
Ele me estuprou.
Ali, no silêncio da casa que cheirava a flores de velório, enquanto o corpo da mulher que ele dizia amar ainda não havia sido enterrado.
A dor física não era nada comparada à traição, à violação, à sujeira que se instalou na minha alma.
Quando a polícia chegou, alertada por um vizinho que ouviu meus gritos abafados, eu estava encolhida no chão, um trapo humano.
Ricardo já havia se recomposto, seu rosto era uma máscara de preocupação e inocência.
Seus pais, Helena e Afonso, chegaram logo depois, seus rostos carregados de uma fúria controlada, não por mim, mas pela ameaça de escândalo.
Helena se aproximou de mim, seus olhos frios me analisando.
"Ana, querida," ela disse, sua voz falsamente doce, "sabemos que você está passando por um momento difícil, a perda de Sofia foi um choque para todos nós."
Ela olhou para Ricardo, depois de volta para mim.
"Mas você precisa entender, meu filho está destruído, ele não faria mal a uma mosca. Talvez você tenha... se confundido, na sua dor."
A pressão era imensa, o olhar deles me esmagava, a sala parecia encolher.
Os policiais me fizeram perguntas, suas vozes eram gentis, mas distantes.
Eu podia ver a acusação tomando forma, o poder da família de Ricardo pairando no ar.
Eles eram ricos, influentes, e eu não era nada.
Apenas a amiga órfã, a coitadinha.
Então, para o choque de todos, especialmente dos policiais que esperavam uma denúncia, eu fiz o impensável.
Eu olhei para o policial, meu rosto inexpressivo.
"Não aconteceu nada."
Minha voz saiu como um sussurro rouco.
"Eu... eu tive um pesadelo. Gritei. O Sr. Ricardo só veio ver o que tinha acontecido."
O policial franziu a testa, confuso. "Senhorita, você tem certeza? Você tem marcas..."
"Eu caí," menti, a palavra queimando minha garganta. "Eu tropecei no escuro. Estou bem."
Eu me recusei a olhar para Ricardo ou para seus pais, mantive meu olhar fixo em um ponto na parede.
Eu o encobri. Eu protegi meu estuprador.
Naquele momento, algo dentro de mim morreu, e algo muito mais frio e escuro nasceu em seu lugar.
A maldição não iria mais me seguir.
A partir daquele dia, eu seria a maldição.
Você pode gostar





