
A Luta do Coração Traído
Capítulo 3
Acordei em um quarto de hospital barato, com o cheiro de desinfetante e fracasso no ar.
A humilhação do torneio tinha me custado tudo. A academia, que já estava por um fio, faliu. Os alunos me abandonaram, os patrocinadores sumiram e as dívidas me engoliram.
Perdi o apartamento que ficava em cima da academia. Perdi o legado do meu pai. Perdi a mim mesmo.
Agora, para sobreviver, eu trabalhava como piloto de corrida de rua, um trabalho sujo e perigoso em um clube clandestino para gente rica. Era uma ironia doentia, eu, que sempre lutei com honra no tatame, agora arriscava a vida em rachas ilegais para pagar o aluguel de um quarto mofado.
Às vezes, no meio de uma corrida, com o motor gritando e o cheiro de pneu queimado, eu ria. Ria do idiota que eu fui, do quanto eu me sacrifiquei por uma mentira. O jiu-jítsu ensina a ter controle, a usar a força do oponente contra ele, mas eu simplesmente me deixei ser finalizado sem nem lutar.
Naquela noite, o clube estava mais movimentado que o normal. O cheiro de perfume caro e champanhe se misturava com a fumaça dos cigarros. Eu estava encostado em um canto, esperando a próxima corrida, tentando ser invisível.
E então eu a vi.
Sofia entrou no salão principal, rindo, cercada por um grupo de jovens ricos e barulhentos. O destino, com seu senso de humor cruel, a trouxe até o meu inferno particular.
Ela estava diferente. A garota de roupas simples e sorriso doce que me enganou tinha desaparecido. No lugar dela, havia uma mulher vestida em um vestido de grife que valia mais do que eu ganharia em um ano, com joias brilhando no pescoço e uma aura de arrogância que preenchia o ambiente.
Ela não era a garota simples que se encantou com a minha academia caindo aos pedaços. Ela era uma deles, uma princesa nesse mundo de excessos e superficialidade.
Uma onda de náusea me subiu pela garganta.
Eu me lembrei do nosso primeiro encontro. Eu estava consertando um vazamento no telhado da academia, sujo de graxa e cansado. Ela apareceu na porta, com um moletom simples e um olhar curioso.
Ela disse que estava passando e sentiu uma "boa energia" vindo do lugar. Disse que admirava a minha dedicação.
Que mentira bem contada.
Ela me perguntou sobre o meu pai, ouviu minhas histórias com uma expressão de falsa empatia. Me fez acreditar que entendia a minha dor, a minha luta.
Ela me falou sobre os torneios beneficentes com um brilho nos olhos, dizendo que era a nossa chance de mostrar ao mundo o verdadeiro espírito do jiu-jítsu, o legado do meu pai.
Cada detalhe, cada conversa, cada toque. Tudo tinha sido um roteiro. Uma peça de teatro bem ensaiada para me destruir.
Aquele primeiro encontro não foi um acaso. Aquele interesse súbito não era real. Aquele amor que eu senti, que eu pensei ser a coisa mais pura da minha vida, era apenas uma arma usada contra mim.
Eu a observei do meu canto escuro, rindo com seus amigos, bebendo champanhe, sem nenhuma preocupação no mundo. Para ela, eu era apenas um jogo, uma diversão passageira. E pelo visto, ela já tinha se esquecido completamente do seu brinquedo quebrado.
A raiva e a dor se misturaram dentro de mim, criando um veneno amargo que queimava no meu peito. Eu finalmente entendi. Não havia nada de real. Nunca houve.
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