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Capa do romance A Íris Traiçoeira da Meia-Noite

A Íris Traiçoeira da Meia-Noite

Após quinze anos, Bruno finalmente nota o esmalte de sua esposa, mas apenas por ser a cor favorita de Sheron, sua assistente. O desprezo do marido é seguido pela crueldade do filho, Biel, que prefere a companhia da outra e exige um presente para ela, esquecendo o aniversário da própria mãe. Diante da indiferença e da substituição afetiva dentro do lar, ela decide agir. Sem hesitar, contata sua advogada para abrir mão da guarda de quem não a valoriza.
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Capítulo 2

Entrei no hall, minha determinação ainda uma ferida aberta, e vi um par de saltos agulha vermelho-rubi brilhantes, cuidadosamente colocados ao lado dos sapatos caros de Bruno. Não eram meus. Eram de Sheron. Meu estômago revirou.

A própria Sheron saiu da sala de estar, um sorriso falso e açucarado estampado no rosto. Seus olhos, no entanto, continham um brilho de triunfo ao encontrarem os meus.

"Alice! Você chegou cedo!" ela disse com uma voz cantada, como se estivesse surpresa. "Biel e o Caio estão brincando no quarto dele. O Caio estava tão animado para finalmente brincar aqui."

Caio. O filho de Sheron. Sua risada, clara e sem restrições, ecoava do quarto de Biel. Era outra invasão, outra parte da minha vida que ela havia absorvido perfeitamente.

Meu olhar se desviou para a mesa de centro. Lá, a caneca de porcelana favorita de Bruno, aquela que ele insistia que ninguém mais tocasse, estava pela metade. Havia uma marca de batom de Sheron na borda. "Sheron", eu disse, minha voz perigosamente calma, "você está usando a caneca do Bruno."

O ar ficou denso, subitamente pesado. O sorriso dela vacilou, apenas uma fração.

Ela fingiu surpresa, a mão esvoaçando até o peito. "Oh, céus! Era do Bruno? Me desculpe! O Caio deve ter me dado. Ele é sempre tão atencioso, me trazendo bebidas."

Ela continuou, um sorrisinho sutil brincando em seus lábios: "Mas não se preocupe, Alice. Bruno e eu temos conjuntos iguais no escritório. Às vezes é difícil distingui-los."

Uma risada fria me escapou. "Conjuntos iguais? Que charmoso." Inclinei-me, minha voz baixando para um sussurro conspiratório. "Sabe, o Bruno tem H. pylori. O médico insistiu em talheres e canecas separados para ele. Higiene rigorosa. Acho que ele esqueceu de te avisar? Ou talvez você simplesmente prefira compartilhar germes."

O rosto de Sheron perdeu a cor, suas falsas gentilezas se dissolvendo em uma máscara de pura mortificação. Ela murmurou algo sobre uma ligação urgente e praticamente arrastou Caio para fora, seus saltos rubi batendo freneticamente no chão de mármore.

A vitória tinha gosto de cinzas. O nojo se formou no meu estômago. Ela estava dormindo aqui, cozinhando aqui, criando o filho dela com o meu. Ela estava brincando de casinha na minha casa.

Estava claro. Ela não estava apenas tendo um caso com Bruno; ela estava construindo uma nova vida com ele, bem debaixo do meu nariz. Ou, mais precisamente, na minha antiga casa.

Biel saiu do quarto, os olhos cheios de lágrimas. "Mãe! Por que você foi tão má com a Sheron? Você fez ela chorar! Você sempre estraga tudo!" Ele me fuzilou com o olhar, seus pequenos punhos cerrados.

Ele fungou: "O papai diz que você é sempre tão... tão difícil. Ele diz que você reclama de tudo e nunca o valoriza. Ele diz que você nem gosta da comida que ele compra e sempre o faz se sentir pequeno."

Bruno andava reclamando de mim? Para Sheron? Para o filho dele? A ideia de que ele nutria tanto ressentimento, corroendo silenciosamente nosso casamento, revirou meu estômago. A dor da traição se intensificou, uma dor surda e latejante.

Bruno voltou uma hora depois, seu rosto indecifrável.

Eu o observei colocar a pasta no chão. Então, peguei sua caneca, ainda manchada com o batom de Sheron, e a estendi para ele. "Aqui, Bruno. Sua caneca favorita. Quer um pouco de chá?" Minha voz era plana, sem emoção.

Ele olhou para ela, depois para mim. Seus olhos, geralmente tão rápidos em se esconder, mostraram um lampejo de algo, talvez culpa, talvez irritação. "Não", ele disse, a voz seca. Ele foi até a pia, pegou uma caneca limpa e a encheu de água. Ele nem tocou na que eu ofereci.

Naquela noite, ele virou as costas para mim na cama. Ele sempre fazia isso agora. Nenhum toque casual de mãos, nenhum toque demorado. Apenas costas frias e impassíveis.

Fiquei ali, lágrimas silenciosas traçando caminhos pelas minhas têmporas até meu cabelo. O sal ardia nos meus olhos, mas o vazio por dentro era muito mais doloroso.

Lembrei-me de uma época em que ele me puxava para perto, beijava minha testa, sussurrava que eu era a mulher mais bonita do mundo. Ele me trazia café na cama, do jeito que eu gostava. Aquele Bruno parecia um personagem de um romance esquecido.

Eu funguei, um som pequeno perdido no vasto silêncio do quarto. Ele não se mexeu. Ele não se importava. Não mais.

O homem que um dia jurou me amar para sempre tinha desaparecido. Substituído por um estranho que deitava ao meu lado, alheio à minha agonia silenciosa. A constatação foi uma pedra fria e dura no meu peito: ele havia parado de me amar há muito tempo.

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