Capa do romance A Indomável

A Indomável

9.1 / 10.0
Após romper um namoro sem futuro, a vida de Elizabeth Fabbri muda drasticamente em uma balada. Ela acaba atraindo Louis, um implacável Don da máfia em missão no Brasil que não aceita ser rejeitado. Instigado pelo desprezo da jovem, o mafioso decide inseri-la em seu mundo perigoso. No entanto, o que era apenas um jogo de sedução e poder logo se torna uma ameaça real. Agora, Elizabeth precisará enfrentar riscos mortais ao se envolver com esse homem terrível.

A Indomável Capítulo 1

Seria triste, se não fosse cômico escutar a mesma pergunta o tempo

— Seus pais são fãs de Jane Austen? Você tem apenas vinte e dois anos,

é o único motivo para...

— Ter nome de gente velha? — cortei o garoto abusado e arrogante. Não gostava dele e podia sentir de longe a energia pesada que emanava, mas pelo bom convívio, eu o suportava e fingia que aquilo não me abalava. — Não, Elizabeth era o nome da minha avó e tenho muito orgulho de ter o mesmo nome que ela.

Minha avó havia se fodido muito na vida, e eu parecia não ter só herdado o nome, como também o gênio da mulher. Ela criou meu pai e meus tios batendo de porta em porta, trocando faxina por um lugar para dormir e algo para eles comerem. Assim que meu avô, um italiano que gostava de uma boa cachaça, morreu atropelado enquanto ia para o trabalho, minha avó perdeu tudo o que tinha, sendo expulsa da casa alugada logo em seguida.

Ela tinha sido um exemplo, e a saudade que deixou quando morreu ainda era um rombo enorme no meu coração. Talvez, se não fosse sua partida, eu não estaria aqui, sentada na cadeira da faculdade, estudando para ser uma escritora decente e fazendo meu inglês melhorar para poder tentar um intercâmbio.

Mesmo com três meses de faculdade atrasados, eu precisava dar um jeito na minha vida, que vinha sendo uma montanha de emoções desde que meu pai ficou doente e eu perdi o emprego. A última entrevista na qual compareci acabou comigo; eu tinha quase morrido de felicidade por ter passado em todas as etapas, e iria finalmente começar a trabalhar. Só que um dia antes de tudo começar, recebi um e-mail dizendo que infelizmente a minha vaga deixaria de existir por um reajuste da empresa.

Todos os meus sonhos pareciam estar indo pelo ralo.

O intercâmbio, a chance de quitar minhas dívidas todas, o namoro que eu havia investido tanto tempo... Até mesmo minha imaginação extremamente fértil

andava me deixando na mão, e eu ainda estava ali, sentada, para fazer uma prova substitutiva em uma matéria que tinha me dado mal.

Eu rezei para não pegar uma bela pendência naquela merda.

— Ignora... — Isabella, minha parceira nos últimos quatro meses, me deu algumas batidinhas no ombro.

Tínhamos uma conexão bizarra, tipo aquela sensação de “já te vi em algum lugar”. Procuramos em tudo quanto é canto, mas a única coisa em comum era que tínhamos casas de praia no mesmo lugar — o único bem restante dos meus pais. De qualquer jeito, ela havia armado a loucura daquela noite, insistindo que eu precisava de uma comemoração urgente por me livrar de um relacionamento ruim depois de tantos anos.

— Espero que seja a primeira balada hétero que preste, juro! Pelo menos dizem que eles recebem muitos estrangeiros, vai que eu encontro uma francesa ou uma americana querendo experimentar algo novo? — Isa piscou para mim e me fez rir. — Boa prova! — ela me desejou antes de eu perceber que a professora baixinha estava dentro da sala de aula.

* * *

— Escrevi uma bíblia inteira nos últimos setenta minutos, minha mão está doendo pra caralho! — reclamei. Eu era um pouco boca suja, confesso, mas palavrão era advérbio de intensidade, na minha concepção.

— Exagerada... — Isa cantou para mim, sorrindo com seus um metro e setenta de bronzeado, pernas longas e corpo magro. Seus cabelos cacheados iam até pouco abaixo dos ombros, e seus olhos eram enormes e quase pretos, eu invejava isso nela. — Vamos logo para a casa das minhas amigas, vamos nos trocar lá e esquecer essa merda de faculdade até semana que vem! — Ela me puxou pelas rampas da PUC como se a vida dependesse daquilo.

Sendo bem sincera, eu adoraria que aquela noite trouxesse minha libertação.

* * *

O apartamento das amigas de Isa não ficava longe, era uma república feminina. Eu conhecia de vista uma ou duas meninas, mas nenhuma era realmente minha amiga. Em sua grande maioria, eram meninas do interior, com pais multimilionários, mimadas a ponto de eu não conseguir conversar meia hora com qualquer uma delas sem revirar os olhos ou falar algo que faria Isabella receber olhares tortos por ter me convidado.

Quando terminamos de nos arrumar, aproveitei que estava sozinha e me encarei no enorme espelho da sala. Eu era a mais baixa dali, com pouco mais de um metro e meio. Também era a gorda do grupo, considerando que até a garota mais magra dentro daquele apartamento queria fazer lipo porque a barriga tinha dobrinhas quando ela se sentava.

Me sentia bem com meu corpo, e isso bastava. Havia herdado os grandes seios da parte italiana da família e a bunda grande da parte brasileira. Entretanto, por mais acinturada que eu fosse, sempre seria gorda, e por mim tudo bem. A única coisa que me incomodava era usarem a palavra “gordo” como ofensa quando aquilo não passava de um adjetivo como qualquer outro.

Estava vestida com uma combinação esquisita, mas que funcionava. Uma mistura de botas overknee, meia-calça, shorts e uma camisa xadrez larga por cima de uma regata branca. Meu cabelo liso e comprido estava na altura da bunda, e tudo o que fiz foi um coque no alto da cabeça.

A maquiagem de olhos esfumados que Isa insistiu em fazer no meu rosto só deixou meus olhos menores, mas eu não me importei, porque minha marca registrada era o batom vermelho. Eu tinha uma boca bonita, bem desenhada e cheia, com lábios inferiores mais carnudos do que os superiores.

Estava realmente gostando de me ver em frente ao espelho, até que todas as garotas chegaram perto e eu pude perceber o quanto todas elas eram mais atraentes do que eu. A insegurança foi sorrateira, e, por um minuto, o pensamento de ter sido burra por terminar meu namoro me consumiu. Respirei fundo e me olhei novamente no espelho antes de sair para chamar o elevador, afirmando para o fantasma da baixa autoestima que ele não me dominaria mais.

A liberdade de uma noite insana era tudo o que eu precisava, e nada estragaria isso.

* * *

O letreiro ultra luminoso era bem maior do que eu imaginava, e as pessoas me encaravam mais do que eu gostaria de ser olhada.

— Por aqui, os VIPs não precisam esperar — a garota loira encarou a fila com desprezo e mais uma vez eu revirei os olhos. Se continuasse nesse ritmo, até o final da noite, eu estaria enxergando meu próprio cérebro.

O segurança pediu o RG de todas, para confirmar a idade, e me encarou de um jeito sujo quando percebeu que eu era a mais velha do grupo.

— Que foi? Perdeu alguma coisa? — perguntei, erguendo a sobrancelha e tirando o sorrisinho atrevido da cara do homem, que colocava a pulseira no meu braço. — Obrigada!

Puxei o braço com mais violência do que precisava e segui atrás de Isa.

* * *

Primeiro tudo estava escuro, e então comecei a sentir o grave do som bater forte dentro de mim, no meu estômago ou no meu útero, eu não sabia direito.

Meus olhos demoraram a se adaptarem a tanta luz neon. Tinha muito mais gente do que eu esperava lá dentro e — obrigada, Deus — a música era boa!

Eu amava dançar, amava demais me libertar daquele jeito, e fazia um bom tempo que isso não acontecia. Na verdade, mal conseguia me lembrar de qual tinha sido a última vez em que tinha feito aquilo.

— VEM! — eu li os lábios de Isa, e ela me puxou pela mão até o camarote.

Ser VIP era realmente algo naquele lugar. Os convites foram oferecidos pelo tio de uma menina chamada Camilla, eu não tinha certeza se esse era o nome dela. Isa havia me contado que ele era o mais novo sócio do lugar. Aos meus olhos, pela quantidade de gente ali dentro e pelas que estavam esperando para entrar, o homem tinha feito um ótimo negócio.

Os camarotes eram na altura dos palcos e distribuídos pelo salão, o chão de um carpete vermelho escuro quase se misturava com o estofado dos sofás, que circulavam o que eu achei ser uma mesinha, mas logo percebi que eram pequenos palcos de pole dance. A área tinha um parapeito transparente, que nos permitia ver a pista. A minha vontade de dançar cresceu enquanto ouvia as meninas conversando.

— Ei! Vamos esquentar! — Isabella me estendeu um shot com alguma bebida, brindamos e colocamos para dentro. Não tinha ideia do que era aquilo, mas desceu queimando pela garganta.

— Opa! — balancei a cabeça. — É bom que isso seja bem caro, porque eu vou dar um prejuízo da porra! — E foi o que fiz, tomei mais uma dose daquilo e peguei uma garrafa que deixaram em cima da nossa mesa.

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