
A Herdeira da Ruína: Sua Ascensão Triunfante
Capítulo 2
O funeral do meu pai acabou.
A chuva miudinha de Lisboa molhava-me o casaco preto.
O meu noivo, o Léo, estava ao meu lado, a segurar um guarda-chuva sobre a cabeça da minha madrasta, a Sofia.
Eu não tinha guarda-chuva.
A água escorria-me pelo cabelo e pela cara, mas eu não sentia o frio.
O Léo nem sequer olhou para mim uma vez.
Ele estava demasiado ocupado a consolar a Sofia, que chorava nos seus braços.
"Sofia, por favor, não chores mais. O tio Miguel não ia querer ver-te assim."
A voz dele era suave e cheia de preocupação.
A Sofia fungou.
"Léo, eu sei. Mas eu não consigo evitar. Agora que o teu tio se foi, o que é que eu e a Camila vamos fazer?"
Camila é a filha dela, a minha meia-irmã.
Olhei para a fotografia do meu pai na lápide. Ele parecia estar a sorrir para mim.
Senti um aperto no peito.
O meu pai morreu num acidente de carro há três dias.
Eu estava a trabalhar no Porto quando recebi a notícia.
Conduzi toda a noite para voltar a Lisboa.
O Léo não me ligou uma única vez.
Quando cheguei, encontrei-o a cuidar da Sofia e da Camila.
Elas pareciam ser a sua família. Eu era a estranha.
Agora, no funeral, a cena repetia-se.
Ele segurava a Sofia, sussurrava-lhe palavras de conforto e limpava-lhe as lágrimas.
Eu fiquei ali, sozinha, encharcada pela chuva.
"Léo," chamei, a minha voz rouca.
Ele finalmente virou-se para mim, a sua expressão irritada.
"O que foi, Ana? Não vês que a Sofia não está bem?"
"Eu também não estou bem. O meu pai morreu."
"Eu sei disso! Achas que és a única a sofrer? A Sofia perdeu o marido! A Camila perdeu o pai! Podes parar de ser tão egoísta por um momento?"
As suas palavras foram duras.
Olhei para ele, para o homem com quem ia casar em dois meses.
Não o reconheci.
"Egoísta? O meu pai acabou de ser enterrado e tu estás a consolar a mulher dele em vez da filha dele. E eu é que sou a egoísta?"
A Sofia soluçou mais alto, agarrando-se ao braço do Léo.
"Léo, não discutam. É tudo culpa minha. Eu não devia estar a causar problemas."
O Léo olhou para mim com raiva.
"Vês o que fizeste? Deixa-nos em paz, Ana. Vai para casa. Precisas de te acalmar."
Ele virou-me as costas e voltou a focar-se na Sofia.
Fiquei a olhar para as costas dele, sentindo-me completamente vazia.
O meu pai tinha-se ido.
E o homem que eu amava tinha-se tornado um estranho.
A chuva ficou mais forte.
Dei meia volta e afastei-me do cemitério, sozinha.
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