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Capa do romance A garota e o tigre

A garota e o tigre

Em uma Terra devastada por guerras e egoísmo, a esperançosa July acredita em um futuro melhor. Sua vida muda ao conhecer Adriel, um jovem de outro mundo que atravessou um portal por curiosidade. Encantado pela bondade dela, ele a leva para uma dimensão mágica repleta de fadas. Nesse reino, July busca realizar seu maior sonho: encontrar o lendário tigre branco, uma criatura que visitava seus pensamentos e que Adriel garante ser real.
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Capítulo 2

— Aquela menina disse.

— É mesmo, esqueci disso.

Os dois ficaram em silêncio.

— Bem... Está com fome?

— Não.

— Depois que os meus pais chegarem e estiverem dormindo, vou arrumar um colchonete aqui para você. Antes disso preciso que você fique em silêncio e se ouvir alguém vindo aqui, se esconda debaixo da cama. Pode ser?

— Claro.

— Que bom que estamos nos entendendo agora.

E lá estavam eles de novo... Os dentes perfeitos e brancos.

— July!

A menina arregalou os olhos ao ouvir sua mãe chamar.

— Eu preciso ir.

— Estarei aqui — respondeu simplesmente.

A garota foi até seus pais.

— Que cara é essa?

— Que cara?

— Parece assustada. Teve alguma notícia na escola?

— Que notícia?

— Parece que não — disse seu pai.

— Do que estão falando?

— Parece que o Kirovs inventou outra guerra.

July suspirou. Um dia ele ainda mataria a todos!

— Mas quem ousaria ir contra ele?

— Descobriu um grupo de pessoas que estavam armando para derrubá-lo do poder e ficou louco. Temos que nos proteger.

— Vamos para o buraco outra vez? — perguntou, chateada.

"Buraco" era um lugar embaixo das terras da cidade onde os habitantes se escondiam durante essas guerras loucas de Kirovs. July chamava assim porque lá dentro era tudo feito de pedras, eles desciam, desciam, desciam e finalmente chegavam em um lugar apertado e escuro. Mal dava para respirar ali dentro, principalmente quando alguma bomba caia por perto e a poeira teimava em entrar no maldito buraco.

— Sim, vamos para o refúgio. Se prepare.

— Vamos agora?

— Amanhã de manhã.

— Tudo bem.

July seguiu para o seu quarto e quando entrou, o garoto não estava lá. Essa não! Como vai fazer com ele? Levá-lo para o buraco? Onde ele se meteu? Céus! E agora? Ela pediu para não sair dali!

Ao olhar para o chão, levou um grande susto. Ele saía debaixo da cama. Como ela pediu para qualquer coisa se esconder ali, ao ouvir alguém se aproximando, ele entrou debaixo da cama dela e percebendo que não era um de seus pais, saiu.

— Você me deu um baita susto!

— Desculpe.

— Isso é o de menos agora. Tenho que pensar em como te levar para o buraco! Você não pode ficar aqui! Se alguma bomba acertar a casa... Não quero nem pensar! — Parou de tagarelar ao ver ele em pé paralisado de costas para ela. — Que foi?

Ele não respondeu e sequer se mexeu.

July se aproximou e percebeu que segurava algo. Ficando na ponta dos pés para ver o que era, quase entrou em colapso. Ela se aproximou e arrancou o que tinha na mão dele.

— Isso é pessoal! — falou, nervosa e dobrou o papel.

— Como conseguiu isso? — Ele estava sério.

— Já disse que é pessoal!

O menino se aproximou e fez ela olhar para cima, pois era bem mais alto do que ela.

— Quem te deu isso?

— Não sabe o que quer dizer pessoal? — perguntou, rabugenta.

Adriel estreitou os olhos e ela percebeu que estava ficando irritado.

— É exatamente por isso que pergunto.

— O que tem de mais no desenho?

— Onde conseguiu?

— Eu pintei.

A expressão dele mudou, mas July não soube dizer se era bom ou ruim.

— Mas viu em algum lugar?

— Você vai achar besteira... — Desviou o olhar dele.

— Acredite. Não vou.

— Como pode ter certeza?

— Eu já vi esse tigre.

— Jura? Onde?

Ele pareceu pensar depois da pergunta.

— Isso é uma longa história...

— Tenho todo o tempo do mundo.

— Não, não tem. Uma guerra está por vir.

— Como sabe disso?

— Ouvi a conversa de seus pais.

— Como? O quarto é muito longe da sala! Você saiu do quarto? — perguntou com desespero. — Eu disse para não fazer isso! Se alguém te visse! — falou sem que ele conseguisse responder.

— Eu não saí.

— Que audição hein! — O garoto deu uma risada. — Me conte de onde conhece o tigre.

— Só se me contar onde viu.

Os dois ficaram em silêncio por uns instantes. July pensava se contava ou não e Adriel como sempre, não desprendia seus olhos de cima dela.

— De onde você vem, as pessoas ficam encarando assim mesmo?

Adriel deu uma gargalhada e fez July sorrir.

— Na verdade, não.

— Então é uma coisa sua...

— Também não.

— Então por que me olha assim?

Uns segundos de silêncio depois da pergunta.

— É uma longa história.

— Oh! Também quero ouvir essa!

— Primeiro você conta onde viu o tigre.

— Cismou com isso — resmungou.

— O que tem de mau em contar?

— Todos acham que sou louca! Que só imagino coisas e fantasio tudo! É só por isso! — falou, irritada.

— Pois eu não acho você louca.

— Nem me conhece!

— Se continuarmos assim, não vamos a lugar algum.

Mais uma vez o silêncio invadiu aquele quarto. July olhava para a janela e pensava em como dizer que o tigre era de um sonho e ao mesmo tempo em como ele poderia conhecer o tal tigre.

Já Adriel esperava ansioso pela resposta da garota, tinha os olhos presos nela e observava cada expressão que ela fazia.

— Pode pelo menos me responder por que isso é importante?

O garoto ficou pensativo.

— Porque nunca achei que alguém daqui saberia dele.

— Ele existe?

— Sua vez de responder — disse sorrindo.

July suspirou derrotada.

— Tudo bem. Eu sonho com ele às vezes...

Os olhos do menino brilharam quando ela respondeu, o que fez ela começar a achar que não era a única louca naquele lugar.

— Como são os sonhos?

— Não! Eu não vou dizer isso! Já respondi como fiz o desenho, agora é sua vez de me dizer como conhece ele!

— É complicado.

— Não importa eu tento descomplicar!

O garoto deu uma risada gostosa e ela não conseguiu segurar a sua.

— Não sei se devo dizer.

— Você disse que ia!

— Mas eu não...

— Nada de "não posso", "não devo", ou qualquer um desses! Você disse que ia contar se eu contasse!

Já sem saída, ele concordou.

— Está certa.

— Conte.

Quando ele ia começar a história, o pai de July gritou, fazendo a menina revirar os olhos, o que fez Adriel sorrir.

— Já vou! — gritou de volta. — Você vai me contar isso ainda hoje! Vou tentar esconder comida para você.

— Obrigado.

July saiu do quarto e foi encontrar seus pais. Estavam já sentados à mesa.

— Por que demorou a descer?

— Estava fazendo umas anotações da escola. Desculpe.

— Tudo bem. Sente-se.

A menina obedeceu.

O jantar foi, como sempre, entediante. Ninguém contava nada de diferente ou emocionante e na maioria das vezes ficava um grande silêncio, pois todos estavam mastigando. July demorou mais do que o normal para comer. Queria que eles pedissem para ela arrumar a mesa, pois assim pegaria comida para Adriel.

O último a sair da mesa sempre tinha que arrumar e ela nunca era a última, justamente por esse motivo, mas agora tinha um interesse.

— Parece que a mesa vai ficar por sua conta hoje.

— Que chato!

— Não reclame, mocinha! — repreendeu o pai.

— Tudo bem. Pode deixar comigo.

Os dois saíram do local e seguiram para o seu quarto. July terminou sua comida já fria e arrumou toda a mesa. Ela separou um pouco para Adriel e subiu para o seu quarto.

Chegando lá, foi até a mesa de estudos e praticamente jogou o pote com a comida. Ela se aproximou do garoto com fúria e arrancou o que tinha nas mãos dele.

— O que pensa que está fazendo? — Se controlou para não gritar.

— Achei esse caderno no seu colchão.

— Não me diga?! — perguntou, irônica. — Quem deixou você ler?

— Não podia?

— É óbvio que não! Isso é particular!

— Desculpe...

July ficou em silêncio quando ele disse isso. Parecia chateado e um pouco constrangido.

— Desculpa, não deveria ter falado desse jeito. É que o que escrevo aqui é muito pessoal e ninguém pode saber.

— Por que não?

— Todos acham besteira ou fantasia. E aqui não são aceitos esse tipo de coisa.

— Eu sei bem — respondeu, suspirando.

— Trouxe um pouco de comida pra você. — Pegou o pote e entregou a ele. — Não é muita coisa, mas é o que temos.

— Agradeço. — Pegou da mão dela.

— Eu não sei o que fazer com você amanhã — falou, nervosa.

Adriel, que já comia o que ela trouxe, parou por um momento e ficou em silêncio olhando-a.

— Você não tem que se preocupar comigo. Tem que ficar segura.

— Você também tem que ficar seguro.

— Eu vou estar.

— O que quer dizer?

Adriel assumiu um semblante triste.

— Eu vou embora amanhã.

— Já? — perguntou chateada.

— Sim. Não posso ficar muito.

— Que pena.

— O que você escreve é lindo.

— São apenas sonhos.

Os dois ficaram em silêncio.

— Se eu disser que não são, você me acha louco?

— Um pouco.

— Gosto da sua sinceridade.

July desviou o olhar, sentindo vergonha.

— Mas eu vou dizer mesmo você me achando louco. — Seus olhos pareciam queimar enquanto a olhava. — Tudo que li nesse caderno existe.

— Tudo?

— Cada coisa.

— Até o tigre? Por isso disse que o conhece?

— Sim.

— Está de brincadeira comigo? — Cruzou os braços.

— É claro que não!

— Como poderia existir um lugar daquele em um mundo louco como esse?

— Eu não disse que é nesse mundo.

Dessa vez o silêncio foi demorado. July não sabia o que responder. Ele realmente era louco! Como ela pôde colocar uma pessoa assim dentro de sua casa?

— Sei que está pensando que sou louco, mas acredite! O lugar que você vê nos sonhos existe e não é aqui nessa terra.

— E onde seria?

— No mundo de onde eu venho.

— Você é um E.T.?

— Não é bem isso — disse, rindo.

— Porque minha avó me disse que E.T. é verde e você não é — disse com os olhos cerrados —, mas isso não é possível! Porque no meu sonho o tigre fala!

— No meu mundo existem coisas esplêndidas. — Se aproximou dela, que estava sentada na cadeira. — Você pode conhecer se quiser.

— Será que isso também é um sonho? — perguntou para si mesma, mas Adriel escutou.

— Estou aqui mesmo. Sempre ouvi falar que alguém daqui iria aparecer um dia no meu mundo, mas não imaginei agora.

— Nunca teve ninguém como eu lá?

— Sim, claro! Mas há muito tempo não escuto histórias dele.

— Como você vai pra lá? De nave?

A gargalhada foi tão forte, que July pensou que seus pais apareceriam ali.

— É mais simples.

— Como?

— É só usar um portal.

— Portal? — Deu uma risada. — Você cheirou alguns daqueles entorpecentes, não foi?

Adriel suspirou, desapontado.

— Pensei que você iria comigo, mas pelo visto me enganei.

— Abra o portal para eu ver.

— Não adianta se você não acredita. Engraçado que você, de todos aqui, foi a única que vi esperança no olhar e quando li seus sonhos, achei que acreditaria... Mas me enganei.

— Mas como funciona? Magia?

— Sim.

— Magia... — Ficou pensativa. — O que tem no seu mundo?

— Você não vai acreditar.

— Tenta.

O garoto puxou bastante ar e depois soltou.

— Existe água fresca e abundante, animais de variadas espécies, alguns mágicos... Fadas, duendes, bruxas.

— Fadas?

— Sim.

— Elas são pequenininhas e engraçadinhas?

— Depende.

— Tipo desse tamanho? — Fez um movimento com as mãos mostrando como se a fada tivesse o tamanho de uma garrafa pequena de água.

— Não, elas não são pequenas assim.

— Então como são?

— Como pessoas normais.

— E não tem asas?

— Tem sim.

— Que legal! E as bruxas? Usam chapéu pontudo e varinhas mágicas?

— Não. São normais.

— Que coisa...

— Mas não mexeria com elas se fosse você.

— Hum... Elas são mal encaradas?

— A maioria sim.

— Que chato. Os duendes são pequenos, não é?

— Devem ter meio metro de altura.

— Isso tudo é muito legal, mas o que mais me chamou a atenção foi...

— A água — falaram ao mesmo tempo.

— Eu sei. Nesse mundo também já foi assim, mas os humanos abusaram demais.

— Minha avó me contou como era, mas quase ninguém acredita que foi assim um dia.

— E você acredita?

— Sim.

— E acredita em mim agora?

July ficou pensativa. O que tinha a perder indo com ele? Se o lugar é assim tão especial, por que não?

— Acredito.

Assim que ela falou, uma luz forte invadiu o local, fazendo ela fechar os olhos. Quando diminuiu, July abriu os olhos e ficou de boca aberta. Bem atrás de Adriel, tinha um espaço onde ela via um grande gramado verde e árvores de vários tamanhos. A menina ficou em transe com o que via.

Era mesmo tudo verdade.

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