
A Garota Comum Dele Encontrou Tudo
Capítulo 2
Ponto de Vista: Clara Santos
A mensagem para Jonas Moraes pareceu audaciosa. Enviá-la à meia-noite, no silêncio que se seguiu à implosão da minha própria década, era um testamento do quão fundo eu tinha caído, ou talvez, do quanto eu precisava de uma mudança radical. Eu conhecia Jonas. A franqueza do seu perfil não era para se exibir. Ele era um Fuzileiro Naval. Disciplina e uma missão clara eram seu modo de vida. Ele esteve em missões por anos, e homens como ele muitas vezes voltavam querendo se estabelecer, rápido. Encontrar estabilidade, construir um lar. Minha proposta, embora desprovida de romance, oferecia exatamente isso.
Meu celular vibrou alguns minutos depois. Era ele.
"Clara? É você mesmo?" dizia a mensagem de Jonas. "Uau. Isso é... inesperado."
"É," digitei de volta, meus dedos surpreendentemente firmes.
"Tudo bem? A última coisa que soube é que você ainda estava com o Bernardo." Sua pergunta foi simples, direta.
"Nós terminamos hoje," confirmei, as palavras parecendo estranhamente leves agora que estavam expostas. "Dez anos. Jogados fora."
"Sinto muito por isso," ele respondeu. "Mas sobre a sua oferta... sem amarras? Uma parceria?"
"Exatamente," escrevi. "Estou cansada de joguinhos. Cansada de tentar me encaixar em um mundo que não me quer. Eu só quero estabilidade, respeito e uma família. Alguém que me valorize por quem eu sou. Você parece um bom homem, Jonas. Honesto. Confiável. E seu perfil diz que você quer as mesmas coisas."
Sua resposta veio quase instantaneamente. "Eu quero, Clara. Mais do que tudo. E eu te conheço. Você é uma boa mulher. Sempre foi. Minha missão termina em duas semanas. Estou programado para ser dispensado. Tenho uma casa, quitada, no interior de São Paulo. Não é um arranha-céu na Faria Lima, mas é nossa. Sem hipoteca. Tenho economias e vou receber uma boa indenização do exército. Não será o mundo do Bernardo, mas comigo você nunca vai ter dúvidas sobre o seu lugar. Seremos parceiros. Iguais. O que me diz?"
Ele expôs sua vida, nua e honesta. A vida militar significava uma renda estável, mas não uma riqueza extravagante. Sua casa, um bem totalmente pago, falava de responsabilidade. Ele não era rico, mas tinha os pés no chão. Ele estava oferecendo uma vida construída sobre fundações sólidas, não fachadas brilhantes.
"Eu digo sim," respondi, uma calma surpreendente se espalhando por mim. O contraste com o mundo de Bernardo era gritante e, de repente, incrivelmente atraente.
"Ótimo," Jonas respondeu por texto. "Estarei em casa em exatamente duas semanas. Podemos ir ao cartório no dia seguinte ao meu desembarque. Funciona para você?"
"Funciona perfeitamente," confirmei. "Já terei saído do apartamento até lá."
Fechei o aplicativo, uma estranha mistura de alívio e apreensão me invadindo. Naquele momento, uma notificação do Instagram apareceu. Era o Bernardo. Ele havia marcado Kênia Dantas em uma foto. Eles estavam no gala de caridade que ele não podia perder. Kênia, envolta em um vestido de grife, tinha a mão apoiada casualmente no braço dele. Eles pareciam... perfeitos juntos, daquele jeito polido e aprovado pela sociedade.
Olhei para a foto e, sem pensar, toquei no ícone de coração. Uma curtida. Um pequeno ato de desafio.
Segundos depois, meu celular apitou. Uma mensagem de Bernardo. "Sério, Clara? Curtindo minhas postagens? Você está sendo tão mesquinha. Acabou. Siga em frente. E a Kênia é como uma irmã para mim. Não seja ciumenta."
Uma irmã. Ele a chamara assim inúmeras vezes ao longo dos anos. Mas Kênia sempre fora mais do que uma irmã. Ela era a pessoa que a família dele aprovava, aquela cuja origem combinava com a dele. Lembrei-me das conversas sussurradas, da maneira como ele sutilmente nos comparava. "A Kênia lida com essas coisas com tanta elegância," ele dizia, ou "A família da Kênia tem conexões tão interessantes." Essas comparações me feriram, minaram minha confiança ao longo dos anos. Eu sempre me esforcei mais, me vesti melhor, estudei os assuntos do momento, tudo para preencher a lacuna que ele e sua família viam entre nós. Eu sempre cedi.
Mas essa era a antiga Clara.
"Bernardo," digitei, um novo tipo de clareza se instalando em minha mente. "Nós terminamos. E sua vida, a Kênia, seus galas – nada disso tem mais a ver comigo." Então, com um deslizar decisivo, bloqueei o número dele. E depois, para garantir, bloqueei-o em todas as redes sociais. O silêncio parecia liberdade.
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