
A Filha do Traidor
Capítulo 2
PONTO DE VISTA DE OLIVIA:
A namorada de Lucas me encarava com os lábios ensanguentados.
"Não se aproxime! Fique longe de mim." Eu gritei ao me abaixar para fazer pressão no meu pé machucado, em uma tentativa de estancar o sangue.
Pensei que ela estava indo embora quando a vi se levantar.
Mas estava errada.
"Olhe para mim, sua vadia." Ela rosnou para mim, eu olhei para cima para ver o que ela estava planejando.
E para meu horror, ela estava segurando uma grande chaleira com água fervente.
Eu vi os trigêmeos correndo em nossa direção.
Eles já estavam próximos da porta.
Até que ela finalmente abriu a chaleira e jogou a água fervente em mim.
"Alice, o que... Não...!", gritou Lucas com os olhos arregalados de choque.
Eu usei as minhas mãos para tentar me proteger. Ao invés de atingir meu rosto, minhas mãos serviram de escudo e foram queimadas.
Eu gritei em pânico. Sentia que meu corpo inteiro estava queimando. Eu caí no chão, gritando de dor e tive uma visão daquela vadia sorrindo satisfeita.
Foi difícil manter os olhos abertos. Comecei a me sentir fraca e tonta. De alguma forma, consegui abrir meus olhos e vi a expressão horrorizada no rosto dos trigêmeos. Eles pareciam estar preocupados.
"Como você ousa fazer isso?" Surgiu uma voz familiar.
Olhei para a porta e ali estava Erik.
Meu único amigo em toda essa matilha. O herdeiro do Gamma e atual beta.
Erik nunca tinha sido cruel comigo. Mesmo após ser xingado e maltratado por seu pai, ele ainda dava um jeito de fugir e secretamente me oferecia um pouco de comida.
Ele é como um irmão. Ele até já comprou roupas para mim sem ninguém saber. Eu o amo.
Ele correu em minha direção mas hesitou em me abraçar pois todo o meu corpo estava vermelho e queimado.
"Olivia...", disse Erik à beira das lágrimas. De alguma forma ele conseguiu me levantar e me ajudou a sentar, aos prantos eu o abracei.
Minhas mãos queimadas doíam enquanto o agarrava, mas me sentia segura. Eu gritava enquanto o abraçava e escondia o meu rosto em seu peito.
"Shhh, acalme-se. Vai ficar tudo bem, Olivia. Vou te levar ao médico agora." Erik me consolava esfregando as minhas costas, um dos poucos lugares do meu corpo que não tinha sido queimado e não doía.
"A dor é insuportável, Erik. Por favor, apenas me mate. Eu não aguento mais, acabe com meu sofrimento. Por favor, por favor, por favor..." Aos prantos, eu implorei.
Erik permaneceu em silêncio, então eu implorei novamente.
"Erik, por favor. Eu quero ficar junto do meu pai. Ele nunca vai me machucar. Erick, por favor... Estou te implorando." Eu supliquei desesperada.
"Mas é claro que você quer estar com o Traidor, vocês são iguais. Sua vaca desprezível. Você merece apodrecer no inferno", disse a namorada de Lucas, com a voz anasalada.
"Alice, cala a boca!", gritou Lucas.
"Meu amor, você...", Alice respondeu sem acreditar.
"Já chega!" Erik gritou.
"Guardas!" Erik convocou os guardas.
"Escolte-a para as masmorras." Ele ordenou aos guardas enquanto me acolhia em seus braços.
Eu ainda chorava alto, sentindo muita dor.
"Ela? Mas...", um dos guardas hesitou, mas Erik o interrompeu.
"Eu, o beta da Matilha da Lua Cheia, ordeno que você escolte-a para as masmorras." Erik repetiu em seu tom beta e sem mais delongas, o guarda começou a arrastá-la.
"Mas... Como você ousa? Lucas fale alguma coisa! Ele não pode fazer isso comigo!", ela gritou ao ser arrastada pelo guarda.
"Se Alfa disser algo sobre este assunto, ele não pode questionar, seria um insulto à sua posição." Erik disse enquanto observava Lucas.
Surpreendentemente, Lucas permaneceu em silêncio, apenas acenou levemente com a cabeça para o guarda.
E assim, o guarda a arrastou para fora da sala. Ela continuou gritando, mas Lucas não se atreveu a olhar para ela.
"Obrigado, Alfa, por honrar os seus deveres de Alfa." Disse Erik e saiu correndo com sua supervelocidade comigo no colo, em direção ao médico.
"Pai, me espere... Estou indo." Foi tudo que consegui dizer ao cair na escuridão. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
A escuridão tomava conta de tudo ao meu redor, mas de repente, em um canto mal iluminado, vi meu antigo quarto. A porta do quarto se abriu me fazendo estremecer.
Foi então que vi, eu, em forma de quando era criança, brincando com meu pai.
Ele estava vestido com uma fantasia de tigre, correndo atrás de mim enquanto eu ria despreocupadamente.
Vi a tia Lucy e me escondi atrás dela.
"Nem mesmo a tia Lucy vai te salvar hoje, Olivia." Papai disse imitando a voz de um vilão, me fazendo rir ainda mais.
A tia Lucy ria e se divertia com a nossa brincadeira.
"Mas eu posso te salvar!" O tio Brian apareceu e eu corri para os braços dele antes que meu pai pudesse me alcançar. O tio me pegou no colo e beijou minha bochecha.
"Seu herói chegou, Olivia", disse o tio Brian e eu o abracei, rindo ainda mais alto.
"E eu, não ganho um abraço também?", perguntou a tia Lucy se aproximando de mim e eu pulei em seus braços. Ela deu um beijo em minha testa.
Eu apenas sorria enquanto observava as minhas memórias de infância. Meus olhos se encheram de lágrimas.
Tudo era tão perfeito.
"Poxa, ninguém me ama." Meu pai fingiu estar triste, tia Lucy fez sinal para mim ir dar um beijo nele.
Fiquei na ponta dos pés e dei um beijo na bochecha do papai.
De repente, a porta se fechou com violência. E tudo ficou escuro novamente.
"Não, eles ainda estão no quarto." Eu corri desesperada em direção à porta.
Tentei abri-la, mas estava trancada.
Comecei a bater com força na porta.
Eles estão lá dentro, preciso encontrá-los.
Eu comecei a gritar.
Gritei sem parar, mas não ajudou em nada.
"Preciso abrir a porta...", gritei enquanto abria os olhos.
Eu estava no hospital da matilha. Sentia alguém me abraçar.
"Você está bem, Olivia?" Olhei e vi que era Erik que me abraçava.
"Pai... tia... tio...", me soltei de seu abraço e comecei a procurar por todos os lados.
"Olivia, acalme-se." Pediu Erik.
"Eu acabei de vê-los no meu antigo quarto. Eles ainda devem estar lá!" Tentei sair da cama, mas Erik me segurou.
"O que houve com você? São eles! Estão no meu quarto!" Eu gritei e o empurrei para longe.
"Olivia, acalme-se. Foi apenas um sonho." Erik disse, me deixando com raiva.
"Não é um sonho! Eu acabei de vê-los. Eu estava abraçando a tia Lucy. Foi real, não é um sonho. Eu preciso abrir a porta daquele quarto. Eles estão me esperando lá dentro. Preciso encontrá-los." Eu supliquei.
"Olivia..." Erik apenas olhou para mim com pena e me abraçou.
"Me largue!" Eu me soltei de seus braços.
"Olivia!" Erik gritou me fazendo recuar.
"Olivia, eles estão mortos. Isso aconteceu há mais de seis anos. Seu pai, a tia Lucy... estão mortos. O seu tio Brian está paralisado. Você está me entendendo?" Ele gritou enquanto segurava meu rosto.
Foi então que me dei conta. Erik está certo. Eles já estão mortos. Eu tinha apenas sonhado com algumas memórias da minha infância.
As lágrimas começaram a se formar em meus olhos. Eu comecei a chorar. A expressão no rosto de Erik se suavizou.
Ele me abraçou com força enquanto eu chorava em seus braços.
"Sinto muito a falta deles, Erik. Eu os amo. Se ainda estivessem aqui, não deixariam ninguém me machucar. Lucas, Alex e Benjamin, eles não me odiariam. Sinto falta dos trigêmeos, de como eles eram..." Eu soluçava.
Eu os amava tanto e me odiava por ainda amá-los.
Mesmo depois de tudo que eles me fizeram, eu ainda os amava. Eu os amava desde criança e continuo a amá-los.
É dolorido quando a pessoa que você tanto ama só te retribui com ódio.
"Vai ficar tudo bem, Olivia." Erik esfregou meu cabelo, fazendo um carinho em minha cabeça.
"Ai!" Senti uma pontada de dor no pescoço.
"O que houve?" Erik perguntou com preocupação no olhar.
"Dói... Está ardendo", respondi com lágrimas nos olhos. Eu me sentia péssima. Mas o que doía mais era que os trigêmeos não me protegiam.
"Tudo isso vai passar." Erik acariciou minha bochecha, me consolando como um irmão.
"Erik, eles prometeram me proteger." Chorei ao ver os curativos em minhas mãos.
"Eles disseram que nunca deixariam ninguém encostar em mim." Chorei mais forte.
"É assim que as pessoas cumprem suas promessas?" Eu disse, mostrando a ele os meus braços enfaixados.
Eu vi lágrimas surgirem nos olhos dele.
"Erik... Eu não aguento mais. Não sei o quanto mais eu posso suportar. Eles me prometeram..." Comecei a sentir tonturas e tudo ao meu redor caiu em escuridão novamente.
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