
A Fénix de Cinzas: O Renascimento de Clara
Capítulo 3
Houve um silêncio do outro lado da linha, seguido de uma gargalhada seca.
"Divórcio? Estás a brincar, certo? Clara, tiveste um choque. Não estás a pensar bem. Estás a dizer disparates."
"Eu nunca falei tão a sério na minha vida."
"Porquê? Porque salvei a minha prima? Ela estava em pânico! Tu sabes como ela é. E o prédio estava a arder, eu tomei uma decisão em segundos. És bombeira por acaso? Sabes o que é tomar estas decisões?"
Ele não era bombeiro. Ele era gestor de projetos.
"O nosso bebé morreu, Tiago."
Disse as palavras e elas pairaram no ar entre nós, pesadas e feias.
"Eu sei... e é uma tragédia", disse ele, mas a sua voz não tinha qualquer emoção. "Mas estas coisas acontecem. Podemos tentar outra vez. Não é o fim do mundo."
Não é o fim do mundo.
O meu mundo tinha acabado de ruir, e para ele, era apenas um contratempo.
"Acabou, Tiago. Quero o divórcio."
Desliguei a chamada antes que ele pudesse responder. Bloqueei o número dele. Depois o da Sónia. E o da Sofia.
Uma hora depois, eles entraram de rompante no meu quarto de hospital. O Tiago parecia furioso, a Sónia tinha uma expressão de desprezo no rosto. A Sofia não estava com eles, provavelmente ainda a recuperar do "choque" com o seu gato.
"Que raio de ideia é essa de divórcio?", gritou o Tiago, sem sequer perguntar como eu estava.
A Sónia avançou na minha direção. "És uma ingrata. O meu filho salvou-te a vida, e é assim que agradeces? A causar problemas?"
"Ele não me salvou a vida", respondi, a minha voz fria como gelo. "Ele deixou-me para trás. Os bombeiros salvaram-me. Ele estava ocupado a salvar um gato."
"O Miau é família!", gritou a Sónia. "E a Sofia estava a ter um ataque de pânico! Tu és forte, sempre foste. Pensei que aguentarias."
"Eu aguentei", disse o Tiago, cruzando os braços. "Mas perdi o meu filho por causa do teu drama."
A acusação atingiu-me. Mas não da forma que ele esperava. Não doeu. Apenas solidificou a minha decisão.
"O teu filho?", repeti eu, lentamente. "Ele era o meu filho também. E ele morreu porque o pai dele decidiu que um gato era mais importante."
"Isso não é justo!", disse o Tiago. "Foi uma decisão de segundos!"
"Foi a escolha errada", afirmei. "Agora vive com ela. Mas não vais viver comigo. Quero que saiam. Agora."
"Não vamos a lado nenhum até resolvermos isto", disse a Sónia, sentando-se na cadeira como se fosse a dona do quarto. "Não vais destruir a nossa família por um capricho."
"A vossa família já estava destruída", disse eu, olhando diretamente para o Tiago. "Eu é que fui demasiado cega para ver. Agora saiam, ou eu chamo a segurança."
O Tiago olhou para mim, incrédulo. Ele não estava habituado a que eu lhe fizesse frente. Ele sempre contou com o meu perdão, com a minha capacidade de "compreender".
Mas a mulher que o compreendia morreu naquele incêndio, juntamente com o seu filho.
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