
A Farsa do Meu Noivo Morto
Capítulo 3
Os meses que antecederam o "acidente" foram os mais felizes da minha vida.
Estávamos noivos há seis meses, e cada dia era uma celebração do nosso amor. Júlia e Pedro, o casal perfeito. Era o que todos diziam. Professora universitária e empresário promissor, nós tínhamos o futuro inteiro pela frente.
Lembro-me de uma tarde de domingo, deitados na grama do parque, planejando nossa lua de mel na Itália.
"Vamos comer gelato até passar mal em Roma", ele disse, beijando a ponta do meu nariz.
"E velejar pela costa de Amalfi", eu completei, sentindo meu coração transbordar de felicidade.
Ele me olhou com uma intensidade que me fazia sentir a única mulher no mundo.
"Eu te amo, Júlia. Mais do que tudo."
Eu acreditei nele. Acreditei em cada palavra, em cada promessa, em cada olhar. Como eu poderia não acreditar?
A notícia da sua morte foi um raio em céu azul. A avó dele me ligou, chorando histericamente.
"O carro... capotou na estrada da serra... a chuva estava muito forte... ele não..."
Ela não conseguiu terminar a frase. Nem precisava.
Lucas veio me buscar e me levou para a casa da avó. A família estava toda lá, um mar de rostos contorcidos pela dor. Eles me abraçaram, me consolaram, compartilharam da minha dor. Ou fingiram compartilhar.
Eles sabiam. A avó, os tios, os primos. Lucas era o único cujo choque parecia genuíno. Olhando para trás, vejo a performance deles com uma clareza nauseante. Eles eram cúmplices da mentira.
E eu, a tola apaixonada, acreditei em tudo. Chorei no funeral de um caixão fechado, segurando a mão da mulher que ajudou a orquestrar a maior traição da minha vida.
Depois de ver Pedro na clínica, a dúvida me corroía. Eu precisava ter certeza absoluta. A ideia de que ele estava vivo e me enganando era tão monstruosa que parte de mim ainda se recusava a aceitar.
Voltei à clínica no dia seguinte. O nome no panfleto, "Clínica de Cirurgia Estética e Reconstrutiva", era a minha única pista.
O dia estava cinzento, uma garoa fina caindo do céu, espelhando a desolação em minha alma.
Entrei na clínica com o coração na mão. Inventei uma história para a recepcionista, disse que estava procurando informações sobre um procedimento para uma amiga. Enquanto ela falava, meus olhos percorriam o lugar.
Foi então que vi, em um porta-retratos digital na mesa dela, uma foto da equipe da clínica em uma festa de fim de ano.
E lá estava ele.
Pedro. Rindo, com um braço em volta do ombro do Dr. Monteiro. A foto era de alguns meses atrás, antes do "acidente". A legenda dizia: "Comemorando com nosso querido amigo e paciente, Pedro".
A prova. Irrefutável.
A recepcionista continuava a falar, mas eu não ouvia mais nada. O som em meus ouvidos era o da minha própria realidade se quebrando em mil pedaços.
Saí da clínica e a garoa tinha se transformado em uma tempestade. A chuva caía forte, impiedosa, mas eu não senti. Fiquei parada na calçada, deixando a água encharcar minhas roupas, meu cabelo, escorrendo pelo meu rosto junto com as lágrimas silenciosas.
Não eram lágrimas de tristeza. Eram de raiva. De humilhação.
Ele não só me abandonou. Ele me aniquilou. Ele me fez de luto por um homem vivo. Ele me transformou na protagonista de uma piada trágica.
E foi nesse momento, encharcada e tremendo de frio e fúria, que o vi novamente.
Do outro lado da rua, debaixo da marquise de uma loja, estavam Pedro e Clara. Ele segurava um guarda-chuva sobre a cabeça dela, protegendo-a da tempestade que caía sobre mim. Ele se inclinou e roçou o nariz no dela, um gesto carinhoso, íntimo. Um gesto que ele costumava fazer comigo.
Meu passado e meu presente colidiram naquela imagem. O homem que prometeu me amar para sempre, protegendo outra mulher, enquanto eu me afogava na chuva e na dor da sua traição.
Ele ergueu os olhos e, por um segundo, nossos olhares se cruzaram através da cortina de água. Vi um lampejo de reconhecimento, de pânico, antes que ele desviasse o rosto rapidamente, puxando Clara para dentro da loja.
Ele me viu.
E ele fugiu.
Fiquei ali, imóvel no meio do temporal. A chuva lavava minhas lágrimas, mas não conseguia apagar a imagem deles juntos, felizes e secos, enquanto meu mundo desabava.
O amor havia morrido. E em seu lugar, nasceu um desejo frio e calculista de vingança.
Você pode gostar





