
A Ex-Esposa Que Voltou Para Brilhar
Capítulo 2
"Nancy, a passagem para o Vale do Silício, para si e para o Tiago, já está reservada. Voo na próxima terça-feira."
A voz da minha assistente, Bethany, soou clara e eficiente através do telefone.
Olhei para o calendário na parede da cozinha. O número sete, circulado a vermelho, parecia-me um gancho afiado.
Faltavam sete dias.
"Bethany, cancele a minha passagem," disse eu, com a voz calma.
"O quê? Nancy, o que se passa?"
"Cancele a minha. E compre uma outra, para o mesmo voo do Tiago, em nome de Juliette Lawrence. Primeira classe, claro."
Houve um silêncio do outro lado da linha. Bethany era mais do que a minha assistente; era a minha melhor amiga. Ela sabia de tudo.
"Entendido," disse ela finalmente, a sua voz um misto de alívio e preocupação. "E quanto a si?"
"Compre-me uma passagem para a Madeira. Só de ida."
"Certo. Estarei à sua espera no aeroporto nesse dia."
Desliguei a chamada e continuei a mexer a massa dos pastéis de nata que estava a preparar. O cheiro a canela e limão enchia a cozinha, um aroma que em tempos me trazia conforto, mas que agora só me lembrava anos de serviço não reconhecido.
Doze anos. Doze anos desde que conheci Tiago Contreras na universidade. Eu era uma promissora chef de pastelaria, com o sonho de abrir a minha própria confeitaria em Lisboa. Ele era um estudante de tecnologia com grandes ideias e bolsos vazios.
Apaixonei-me pela sua ambição. Abandonei o meu sonho, usei as minhas economias, e mudei-me com ele para um apartamento minúsculo no Porto. Durante anos, fiz doces para os seus eventos de networking, usei o meu talento para o ajudar a construir o seu império do zero.
Agora, ele era o CEO de sucesso da "Contreras Tech". E eu... eu era apenas a namorada que ele se preparava para descartar.
A porta da frente abriu-se com estrondo.
"Nancy! O que significa isto?"
Tiago entrou na cozinha, o seu rosto bonito contorcido numa máscara de impaciência. Ele acenava com o telemóvel. A Bethany, como combinado, tinha-lhe enviado a confirmação do bilhete de Juliette.
"É a terceira vez que te peço para aceitares a Juliette vir connosco para os Estados Unidos. Ela esteve ao meu lado durante nove anos, apoiou-me, inspirou-me. Tenho uma dívida para com ela."
Ele disse isto sem um pingo de vergonha. Nove anos. Um caso que durou nove dos doze anos que estivemos juntos.
"Eu sei," disse eu, sem o olhar. Continuei a verter a massa nas formas.
A minha calma pareceu surpreendê-lo. Ele esperava gritos, lágrimas. Já não as tinha para lhe dar.
"Então... tu concordas?"
"Sim, Tiago. Eu concordo."
A sua expressão mudou de irritação para um alívio presunçoso.
"Ótimo. Sabia que acabarias por entender. É o melhor para todos."
Ele aproximou-se, tentando abraçar-me por trás. Afastei-me, e a sua mão caiu no vazio.
"Não me toques."
O seu rosto escureceu novamente. "Qual é o teu problema agora? Estou a tentar ser razoável."
"Razoável?" Ri-me, um som oco e sem alegria. "Flashbacks dos nossos primeiros anos passaram pela minha mente. O apartamento húmido, as contas por pagar, as noites que passei a cozinhar para os seus investidores enquanto ele praticava os seus discursos. Lembrei-me do esgotamento que sofri há cinco anos, o stress e o excesso de trabalho que me deixaram com a saúde fragilizada, uma condição que o meu médico, que por acaso era o marido da Bethany, me disse que comprometia a minha fertilidade."
"A Juliette é mais adequada para ser a esposa de um CEO," disse ele, com uma crueldade casual. "Ela é delicada, uma musa. Tu... tu tornaste-te amarga. Devias aprender com ela a agradar a um homem."
Agradar a um homem. As palavras ecoaram na minha cabeça.
"Já comprei duas mansões no Vale do Silício," continuou ele, como se me estivesse a dar uma grande notícia. "Uma para mim e para ela, e uma mais pequena para ti, para não ficares desamparada."
"Ambas em nome da Juliette, suponho?" perguntei, a minha voz gelada.
Ele não respondeu, o que era uma resposta em si.
"Ela é a minha inspiração," repetiu ele, como se isso justificasse tudo.
A campainha tocou. Tiago foi abrir a porta com um sorriso. Era ela. Juliette Lawrence.
Ela entrou, delicada e pálida, como uma flor de estufa. Os seus olhos encontraram os meus com um brilho de triunfo.
"Nancy, querida. Vim agradecer-lhe. Por ser tão compreensiva."
A sua voz era suave, mas cada palavra era uma provocação. Ela olhou em volta da nossa casa, a casa que eu tinha decorado, e sorriu.
"O Tiago contou-me que finalmente concordou. Fico tão feliz por podermos ser uma família."
Ela aproximou-se de mim na cozinha. "Sabe, o Tiago confia tanto em mim. Até me deu as senhas das contas bancárias dele. Diz que eu tenho mais cabeça para as finanças do que você."
Isso era algo que eu nunca tinha tido. Ele sempre me disse que eu não percebia nada de dinheiro.
A raiva, que eu pensava estar morta e enterrada, começou a borbulhar dentro de mim.
Juliette, sentindo a minha mudança de humor, deu um passo para trás, "acidentalmente" esbarrando numa panela quente que estava no fogão.
Ela gritou, um som agudo e performativo.
"Ai! Queimaste-me! Fizeste de propósito!"
Tiago correu para o lado dela, examinando a sua mão ligeiramente vermelha como se fosse uma ferida mortal.
Ele virou-se para mim, os seus olhos a chamejar.
"Como te atreves a magoá-la? És uma mulher horrível!"
As palavras dele atingiram-me. Eram as mesmas palavras que ele tinha usado há muitos anos, na universidade, para me defender de um colega que me tinha acusado injustamente. Agora, ele usava-as contra mim, para defender a sua amante.
A ironia era esmagadora.
Naquele momento, toda a dor, toda a humilhação, cristalizou-se numa única e fria certeza. A minha decisão estava tomada. Não havia mais volta a dar.
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