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Capa do romance A Esposa Que Ele Nunca Viu

A Esposa Que Ele Nunca Viu

Vivi cinco anos em uma gaiola de ouro, acreditando que meu marido me valorizava apenas por eu carregar o coração transplantado de Isadora, sua falecida amada. No nosso aniversário, o impossível aconteceu: Isadora reapareceu viva, revelando que sua morte foi um teste cruel. Pior ainda, ela confessou que o órgão em meu peito nunca foi dela. Toda a minha existência e o meu casamento foram construídos sobre uma mentira devastadora e sem sentido.
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Capítulo 3

As palavras de Karina não doeram. Eram apenas a confirmação de uma verdade que eu já havia aceitado. Meu amor por Henrique era um cadáver, e ela estava apenas chutando-o.

"Me solta, Karina", eu disse, minha voz neutra.

Tentei puxar meu braço. Ela segurou mais forte, o rosto contorcido por uma raiva feia e desesperada.

"Você tem tudo o que deveria ser meu!", ela gritou.

Na luta, ela perdeu o equilíbrio. Tropeçou para trás, seu salto alto prendendo no tapete felpudo. Ela caiu com força, o braço batendo na quina afiada de um aparador.

Houve um estalo medonho.

O rosto de Karina ficou branco. Então ela soltou um grito agudo que ecoou pelo corredor vazio.

A porta da suíte de hóspedes se abriu com um estrondo. Henrique estava lá, a névoa de embriaguez sumiu de seus olhos, substituída por um alarme agudo.

"O que aconteceu?", ele exigiu.

Karina já estava chorando, agarrando o braço. "Ela me empurrou! Henrique, ela me empurrou!"

Ela apontou um dedo trêmulo para mim.

"Ela disse que ia estragar meu rosto porque eu pareço com a Isadora! Ela está com ciúmes!"

Eu apenas fiquei ali, em silêncio. Qual era o sentido de negar? Ele acreditaria no que quisesse acreditar. Ele acreditaria na mulher que se parecia com seu amor morto.

Os olhos de Henrique se moveram do rosto de Karina, manchado de lágrimas, para o meu, calmo. Seu olhar endureceu, sua expressão se tornou gelo.

Sem outra palavra, ele caminhou até Karina, a pegou nos braços e começou a descer o corredor.

Ele parou ao passar por mim.

"Traga-a", ele ordenou secamente ao segurança que havia aparecido ao seu lado.

O homem pegou meu braço com um aperto firme. Eu não resisti. Eu era uma prisioneira sendo escoltada de volta para minha cela.

O corredor do hospital era branco e estéril. Sentei-me em uma cadeira de plástico duro enquanto Henrique andava de um lado para o outro do lado de fora da sala de emergência.

Um médico saiu, o rosto sério.

"É uma fratura feia", disse ele a Henrique. "Uma fratura exposta da ulna. Há um dano tecidual significativo. Ela precisará de cirurgia para colocar o osso no lugar e, provavelmente, de um enxerto de pele para reparar a ferida."

O rosto de Henrique era uma nuvem de tempestade. Ele olhou para o médico, mas sua próxima pergunta não foi sobre Karina.

"O enxerto de pele", disse ele, a voz perigosamente baixa. "De onde vocês tirariam a pele?"

"Normalmente, tiraríamos da própria coxa da paciente ou..."

Henrique o interrompeu. Seus olhos frios pousaram em mim.

"Tire dela", disse ele.

O médico pareceu confuso. "Sr. Moraes, isso é altamente incomum..."

"Ela causou a lesão", afirmou Henrique, como se fosse um fato inegável. "Ela fornecerá os meios para consertá-la. É responsabilidade dela."

Levantei-me de um salto. Um tremor percorreu meu corpo. "Não. Eu não fiz isso. Foi um acidente."

Henrique caminhou em minha direção, sua figura alta bloqueando a luz fluorescente forte. Ele se agigantou sobre mim, uma figura aterrorizante de julgamento.

"Você já causou problemas suficientes esta noite, Marina", disse ele, a voz um rosnado baixo. "Você vai fazer isso. Você vai assumir a responsabilidade por suas ações."

Ele acenou para seu segurança. O homem agarrou meus braços.

"Não!" Lutei, mas foi inútil. Ele era imensamente forte.

"Henrique, por favor! Juro que não a empurrei!" Eu estava implorando, minha voz falhando.

Seus olhos piscaram com algo — dúvida? hesitação? — mas desapareceu em um instante.

"Eu só acredito no que vejo", disse ele, a voz neutra e fria.

Eles me arrastaram para uma sala de tratamento e me forçaram a deitar em uma maca.

O médico, parecendo profundamente desconfortável, se aproximou. "Sr. Moraes, precisaremos administrar anestesia para este procedimento..."

"Não temos o suficiente para dois procedimentos completos à mão", interveio outra enfermeira. "Podemos sedar a Srta. Bastos para a cirurgia dela, ou podemos usar para a extração do enxerto."

Karina, que havia sido trazida para a sala, começou a chorar. "Henrique, dói tanto. Por favor, eu preciso."

Henrique nem olhou para ela. Seus olhos estavam no médico, o rosto frio e clínico.

"Realizar a extração na minha esposa sem anestesia representa algum risco para o coração dela?"

O médico hesitou. "A dor será extrema, o que pode causar um pico na pressão arterial, mas... não. Não deve representar um risco direto e de longo prazo para o transplante em si."

"Então dê a anestesia para a senhorita Bastos", ordenou Henrique.

O mundo pareceu inclinar. O ar saiu dos meus pulmões. Olhei para o homem que um dia amei, o homem que era meu marido, e vi um monstro.

Uma risada amarga e histérica escapou dos meus lábios.

Ele ia deixá-los cortar um pedaço do meu corpo, sem nada para a dor, tudo para consertar uma lesão que eu não causei. Tudo porque ele estava mais preocupado com o órgão no meu peito do que com a pessoa a quem pertencia.

O cirurgião se aproximou com um bisturi. Vi o brilho do aço.

Mordi o lábio até sentir o gosto de sangue.

A lâmina cortou a pele da minha coxa. A dor era aguda, elétrica, uma agonia branca e incandescente que roubou meu fôlego. Senti o mundo escurecer nas bordas.

Mas a dor física não era nada. Era um eco surdo da agonia que fora esculpida em minha alma nos últimos cinco anos.

Este casamento não era uma gaiola de ouro. Era uma tortura lenta e meticulosa.

E naquela noite, atingiu seu auge.

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