
A Esposa Negligenciada: O Preço da Decepção
Capítulo 3
Chegámos a casa da minha mãe uma hora depois. Ela abriu a porta, o seu rosto preocupado suavizou-se ao ver-nos.
"Sara! Leo! O que aconteceu? Vi nas notícias sobre o acidente perto do vosso prédio. Fiquei tão preocupada!"
Ela abraçou-me com força, e depois pegou no Leo ao colo, enchendo-o de beijos.
"Vovó!"
O sorriso do meu filho foi a primeira coisa genuína que vi naquela noite.
Entrámos. O cheiro a canja de galinha enchia o ar. A minha mãe sempre sabia como me confortar.
"Mãe, eu e o Pedro vamos divorciar-nos."
Disse as palavras em voz baixa, enquanto o Leo já estava a brincar com os seus brinquedos antigos no canto da sala.
A minha mãe parou de mexer a sopa. Ela virou-se para mim, os seus olhos a examinarem o meu rosto. Ela não pareceu surpreendida.
"Foi a Sofia outra vez?"
Assenti, sentindo um nó na garganta.
"Ela torceu o pé. Ele foi a correr para o hospital e vai passar a noite lá. A Clara mandou-me levar o Leo e desaparecer para não 'incomodar'."
A minha mãe suspirou, um som pesado e cansado. Ela sentou-se à mesa da cozinha, em frente a mim.
"Eu avisei-te, minha filha. Avisei-te que esta família te ia consumir. O Pedro é um bom homem, mas é fraco. Ele nunca conseguiu dizer não à mãe ou à irmã."
"Eu sei, mãe. Mas eu amava-o. Pensei que ele mudaria."
"As pessoas não mudam, Sara. Especialmente quando não veem nada de errado no que fazem."
Ela tinha razão. Durante sete anos, eu tinha sido a "compreensiva". A que cedia sempre. A que engolia o orgulho para manter a paz.
"Desta vez é diferente," disse eu, com mais convicção do que sentia. "Eu bloqueei-os. A ambos."
A minha mãe pegou na minha mão. A sua pele era quente e macia.
"Estás a fazer a coisa certa. Mas vai ser difícil. Eles não vão desistir facilmente."
O meu telemóvel vibrou sobre a mesa. Um número desconhecido. Ignorei. Vibrou outra vez. E outra.
Finalmente, atendi.
"Sara! O que raio se passa contigo? Porque é que bloqueaste a tua mãe?"
Era o meu sogro, o Manuel. A sua voz era um trovão.
"A tua mãe está aqui a chorar, a dizer que a trataste mal! Que ingratidão é essa? Nós acolhemo-vos na nossa família, e é assim que nos pagas?"
"Manuel, por favor, não me grite. Eu não fiz nada de mal."
"Não fizeste nada de mal? Ameaças o meu filho com o divórcio por uma ninharia e faltas ao respeito à tua sogra! A Sofia está magoada, e tu só pensas em ti! És egoísta!"
"Egoísta?" A palavra atingiu-me. "Eu passei os últimos sete anos a colocar a vossa família em primeiro lugar. Onde estava o Pedro quando o Leo teve febre alta na semana passada? Ah, pois. Estava a ajudar a Sofia a montar um armário. Onde estava ele no nosso aniversário? A levar a vossa sobrinha ao cinema porque a Sofia 'precisava de uma pausa'."
Houve um silêncio chocado do outro lado da linha.
"Isso... isso são coisas diferentes. É família."
"Exato. E eu e o Leo? Não somos a família dele também? A família principal dele?"
Desliguei o telefone antes que ele pudesse responder. Senti uma onda de náusea.
A minha mãe colocou um prato de canja quente à minha frente.
"Come, minha querida. Precisas de força."
Enquanto eu comia, o meu telemóvel apitou com uma nova mensagem. Era do Pedro, de um número diferente.
"Sara, para com este drama. Já chega. Estás a envergonhar-me à frente dos meus pais. Volta para casa amanhã e pede desculpa à minha mãe. Podemos resolver isto como adultos."
"Pede desculpa."
As palavras ficaram a pairar no ar. Ele nem sequer considerou a possibilidade de estar errado. Para ele, a culpa era inteiramente minha.
A minha decisão solidificou-se, transformando-se de uma reação emocional para uma certeza fria e dura.
Isto não era um casamento. Era uma sentença. E eu estava finalmente livre.
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