
A Escolha Dele, A Minha Guerra
Capítulo 2
O som de metal a rasgar foi a última coisa que ouvi antes de a minha cabeça bater no vidro lateral.
Depois, silêncio, quebrado apenas por um zumbido agudo nos meus ouvidos.
O cheiro a gasolina e a pneu queimado encheu o ar.
Tentei mexer-me, uma dor lancinante atravessou o meu abdómen.
A minha primeira e única preocupação: o bebé.
A minha mão voou para a minha barriga de sete meses. Estava dura, contraída.
"Leo," chamei, a minha voz era um sussurro rouco.
O meu marido, Leo, estava no banco do condutor. Ele mexeu-se, gemeu, mas parecia bem.
Ele pegou no telemóvel dele.
Graças a Deus, pensei, ele vai ligar para a emergência.
Mas não o fez. Ele atendeu uma chamada.
"Sofia? O que se passa? Estás bem?"
A voz dele estava cheia de pânico, uma preocupação que não era para mim.
Sofia era a irmã mais nova dele.
Do outro lado da linha, ouvi a voz chorosa dela.
"Leo, o Mimo não quer comer! Acho que ele está doente! Vomitou no meu tapete novo!"
Mimo era o gato persa dela.
Eu estava presa nos destroços de um carro, a sangrar, com o nosso filho em perigo, e a preocupação do meu marido era o gato da irmã dele.
"Calma, Sofi, calma. Estou a ir para aí. Não te preocupes, o mano resolve."
Ele desligou.
Nem sequer olhou para mim.
Ele abriu a porta do carro, que estava amolgada mas abriu, e saiu.
"Leo, ajuda-me," supliquei, as lágrimas a escorrerem-me pelo rosto. "O bebé..."
Ele finalmente virou-se, o seu rosto uma máscara de irritação.
"Clara, não vês que a minha irmã precisa de mim? É sempre tudo sobre ti! Espera aí, eu chamo uma ambulância quando chegar a casa dela."
Ele virou-me as costas e começou a afastar-se, a falar ao telemóvel novamente, provavelmente a tranquilizar a Sofia.
Fiquei a vê-lo ir-se embora, a silhueta dele a desaparecer na escuridão.
A dor na minha barriga intensificou-se. Senti algo quente a escorrer pelas minhas pernas.
Sangue.
O zumbido nos meus ouvidos ficou mais alto, a escuridão começou a tomar conta das bordas da minha visão.
O meu telemóvel estava partido no chão.
Estava sozinha.
Foi um estranho que parou o carro e chamou a ambulância. A última coisa que me lembro é do rosto preocupado de um paramédico a dizer, "Aguente, senhora. Vamos cuidar de si e do seu bebé."
Depois, tudo ficou preto.
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