
A Drenagem de um Casamento
Capítulo 3
O primeiro dia da minha nova vida começou às dez da manhã. Acordei com o sol no rosto, não com o som estridente do despertador.
Fiz um café sem pressa, sentei na varanda e observei o movimento da rua. Sem e-mails para responder, sem reuniões para preparar. A sensação era estranhamente boa. Libertadora.
Juliana passou por mim como um furacão, já vestida para o trabalho. Ela ainda achava que era uma piada, uma fase, um surto temporário.
"Você não vai mesmo trabalhar?" , ela perguntou, com a chave do carro na mão, a testa franzida em desaprovação.
"Não. Estou de férias permanentes."
Ela bufou e saiu, batendo a porta.
Nos dias seguintes, minha rotina era simples. Levar e buscar Sofia na escola, cozinhar o que tínhamos vontade, e passar horas na frente da TV, vencendo exércitos virtuais.
Juliana me observava. Ela chegava em casa e me encontrava no sofá. No começo, ela tentava conversar. Depois, passou a me ignorar, o rosto fechado numa máscara de desprezo. Ela ainda não conseguia acreditar que sua fonte de renda tinha secado.
A realidade bateu à sua porta uma semana depois, na forma de faturas.
Ela entrou na sala de estar, onde eu estava no meio de uma missão crucial no videogame. Ela parou na minha frente, bloqueando a visão da tela. Nas mãos, um monte de envelopes.
"Bruno, nós precisamos conversar."
Eu pausei o jogo. "Diga."
"As contas chegaram." Sua voz era tensa. "A fatura do cartão de crédito. A mensalidade da escola da Sofia. O condomínio. A prestação do carro. A conta de luz. Como vamos pagar tudo isso?"
Era a deixa que eu esperava.
Eu a encarei, minha expressão calma contrastando com seu pânico crescente.
"Não sei. Talvez você devesse perguntar ao seu irmão."
Ela piscou, confusa. "O que o Pedro tem a ver com isso?"
"Bem, os vinte mil reais que você transferiu para ele na semana passada pagariam tudo isso. E ainda sobraria um bom troco."
O rosto de Juliana ficou pálido, depois vermelho de raiva.
"Como você...? Você estava me espionando?"
"Não preciso espionar, Juliana. É a nossa conta. Eu recebo as notificações. Ou você achou que eu nunca ia descobrir?"
Ela ficou sem palavras por um momento. A culpa e a raiva duelavam em seus olhos. A raiva venceu.
"Era uma emergência! O Pedro precisava do dinheiro para a oficina dele!"
"Outra emergência? Que curioso, as emergências do seu irmão sempre acontecem perto do dia do nosso pagamento."
"Você não entende! Ele é meu irmão! Minha família!"
"E eu e a Sofia somos o quê? Seus patrocinadores?"
A voz dela subiu uma oitava.
"Você é um egoísta! Eu sou dona de casa, cuido desta casa, da sua filha, e você acha que eu não tenho direito a nada? Aquele dinheiro também é meu!"
"Claro que é seu. Tão seu que você o entrega de mãos beijadas para um homem adulto e preguiçoso que se recusa a trabalhar. Enquanto isso, a mensalidade da NOSSA filha está atrasada."
As palavras a atingiram como um soco. Lágrimas começaram a brotar em seus olhos. Eram lágrimas de raiva, de frustração por ter sido descoberta.
"Eu te odeio!" , ela gritou.
Com um gesto dramático, ela pegou uma tigela de cerâmica da mesa de centro e a atirou contra a parede. Os cacos se espalharam pelo chão.
"Eu vou para a casa da minha mãe! Não aguento mais viver com um fracassado inútil!"
Ela pegou a bolsa e saiu, batendo a porta com uma força que fez os quadros da parede tremerem.
Eu não me movi. Apenas observei os cacos da tigela no chão. Era um bom resumo do nosso casamento. Quebrado, sem conserto.
Ouvi o som familiar do ônibus escolar parando na rua. Olhei pela janela. Sofia estava descendo, sua pequena mochila rosa nas costas.
Levantei-me calmamente, desviei dos cacos e fui até a porta. Abri com um sorriso no rosto.
"Papai!"
Sofia correu para os meus braços. Eu a levantei no ar e beijei sua bochecha.
"Como foi a escola, minha princesa?"
"Foi legal! A gente desenhou."
Enquanto ela me contava sobre seu dia, eu a levei para dentro. O caos da briga de minutos atrás pareceu desaparecer. Naquele momento, só existia ela. E a certeza de que eu estava fazendo a coisa certa. Por ela.
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