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Capa do romance A doença dele era uma arma

A doença dele era uma arma

Por seis anos, cuidei do TOC de Heitor, vivendo um casamento de restrições e limpeza. Tudo ruiu ao descobrir que sua fobia era uma farsa para me controlar, enquanto ele vivia livremente com uma amante. Para salvar minha mãe, ele exigiu que eu assumisse uma falsa esterilidade e acolhesse sua nova família. No dia da minha humilhação pública, rasguei o roteiro de mentiras. Diante da imprensa, anunciei o fim daquela farsa e recuperei minha dignidade.
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Capítulo 3

Ponto de Vista: Alina Campos

A ligação da diretora do hospital veio na manhã seguinte. Minha voz estava rouca, minha garganta arranhada de gritos silenciosos.

"Dra. Campos, entendemos que você está passando por um momento difícil", sua voz era seca, profissional, desprovida de calor. "Mas seu comportamento recente tem sido... antiprofissional. Precisamos que você tire uma licença prolongada. Com efeito imediato."

Eu não lutei contra isso. Minha clínica era um deserto, minha reputação em frangalhos. Não havia mais nada pelo que lutar, nada a proteger.

"Entendido", consegui dizer, a palavra uma folha seca farfalhando ao vento. Eu não sentia nada, apenas uma dor surda onde meu coração costumava estar.

Fui para casa. Nossa casa. A fortaleza estéril de Heitor. O cheiro daquele perfume barato ainda pairava, uma invasão fantasma. Na sala de estar, um elástico de cabelo rosa, barato e chamativo, estava sobre a mesa de centro de mármore branco, um toque de cor audacioso, desafiador contra o cenário imaculado. De Brenda, sem dúvida. Ela estava marcando seu território.

Peguei-o, uma risada amarga escapando dos meus lábios. Passei anos treinando Heitor para ser meticulosamente limpo, para abominar qualquer objeto perdido, qualquer cheiro estranho. E agora, isso. Ele havia quebrado todas as suas próprias regras, não por mim, mas por ela. Pela mulher que deixava seus acessórios baratos espalhados como uma vagabunda qualquer.

Assim que meus dedos se fecharam em torno do elástico, a porta da frente se abriu. Brenda. Ela entrou, um sorriso sacarino no rosto, segurando uma bolsa de grife que eu sabia que Heitor havia comprado para ela. Ela parecia totalmente satisfeita consigo mesma, como um gato que engoliu um canário.

"Ah, Dra. Campos", ela arrulhou, sua voz pingando falsa simpatia. "Ainda aqui? Pensei que já teria feito as malas."

Ela olhou para o elástico rosa na minha mão e seu sorriso se alargou, um brilho predatório.

"Ah, você encontrou minha pequena lembrança. Heitor me comprou. Ele acha que rosa combina comigo."

Meu sangue gelou.

"Saia da minha casa", eu disse, minha voz perigosamente baixa.

Ela apenas riu, um som estridente e desagradável.

"Nossa casa, querida. E tenho uma notícia que pode fazer você reconsiderar sua partida."

Ela fez uma pausa, seus olhos brilhando com triunfo malicioso.

"Estou grávida, Dra. Campos. Do bebê de Heitor."

As palavras me atingiram como um golpe físico, roubando o ar dos meus pulmões. Grávida. Minha mente girou, um carrossel doentio de imagens. Meu próprio filho perdido, o filho que não pude carregar. O vazio, o luto, os gritos silenciosos que assombravam minhas noites.

"O quê?", finalmente consegui dizer, minha voz mal um sussurro, um som quebrado.

O sorriso de Brenda se suavizou, tornando-se manipulador.

"Sim. Um menino, achamos. Heitor está tão animado. Ele quer uma família. E você, bem, você não pôde dar uma a ele, não é?"

Ela deu um passo mais perto, sua voz baixando para um sussurro conspiratório.

"Mas não se preocupe. Podemos resolver isso. Heitor ainda gosta de você, do jeito dele. Você pode ficar, ser a 'tia', ajudar a criar o bebê. Afinal, você é tão boa com saúde mental. E a família de Heitor é muito tradicional. Eles nunca a abandonariam completamente."

Meu corpo inteiro enrijeceu.

"Você quer que eu... o quê? Ajude você a criar o filho que você concebeu com meu marido na minha própria casa, depois que ele destruiu minha vida?"

Minha voz estava tremendo agora, um nervo exposto.

"É uma solução prática", ela deu de ombros, um gesto de falsa inocência. "Não é como se você pudesse ter filhos. Todo mundo sabe disso. Heitor me contou como você ficou chateada depois do seu... pequeno acidente."

O mundo embaçou. Meu "pequeno acidente". Meu aborto espontâneo. Aquele pelo qual Heitor nunca me consolou, alegando que meu luto era "anti-higiênico" e "deprimente". Aquele que ele acabara de discutir casualmente com sua amante. Ele havia divulgado meu trauma mais profundo, meu segredo mais agonizante, para ela.

Minha mão voou para a minha boca, um suspiro desesperado escapando. A memória brilhou, vívida e brutal. O quarto de hospital branco e estéril, a dor agonizante, o vazio em meu útero. As palavras sussurradas do médico, as lágrimas que não pude derramar porque Heitor me disse para "me recompor".

Minha visão turvou. Minha mão instintivamente tateou meu bolso, procurando o pequeno frasco de clonazepam que eu carregava, um soldado silencioso contra a ansiedade crescente que eu havia desenvolvido. Eu precisava dele. Agora. Mas meus dedos, tremendo incontrolavelmente, falharam, e o frasco escorregou, espalhando os pequenos comprimidos brancos pelo chão de mármore imaculado.

Os olhos de Brenda se voltaram para os comprimidos, depois de volta para o meu rosto, um sorriso cruel se formando em seus lábios.

"Oh, o que é isso? Dra. Campos tomando seu próprio remédio? Ou é algo mais... potente? Tentando se livrar do seu próprio probleminha, talvez?"

Ela riu, um som doentio.

"Talvez alguns comprimidos abortivos, hmm? Não se preocupe, querida. É tarde demais para mim. Este bebê vai ficar."

O mundo ficou em silêncio. Uma névoa vermelha desceu. Comprimidos abortivos. Ela achava que eu estava tentando abortar meu próprio bebê. A pura ignorância, a crueldade casual, o veneno de suas palavras. Era demais.

Minha mão disparou, agarrando-a pelos cabelos, arrastando-a em direção aos comprimidos espalhados. Ela gritou, lutando, mas eu era mais forte, alimentada por uma raiva primal e ardente. Forcei sua boca a abrir, apertei seu nariz e comecei a enfiar os pequenos comprimidos brancos, um por um, em sua boca.

"Você quer pílulas abortivas?", rosnei, minha voz crua e quebrada. "Aqui! Pegue algumas! Pegue todas! Vamos ver como você gosta!"

Ela engasgou, sufocando, seus olhos arregalados de terror. Ignorei suas lutas, forçando mais comprimidos para dentro. Seu rosto estava ficando roxo, seu corpo se contorcendo.

Assim que suas lutas começaram a diminuir, a porta da frente se abriu novamente. Heitor. Ele ficou congelado na porta, seus olhos arregalados de horror, absorvendo a cena: eu, ajoelhada sobre Brenda, forçando comprimidos em sua garganta, seu rosto convulsionado de terror.

"Heitor!", Brenda gritou, cuspindo os comprimidos, sua voz um suspiro estrangulado. "Ela está tentando me matar! Ela está tentando matar nosso bebê!"

Heitor se moveu como um raio, me afastando de Brenda com um empurrão brutal que me fez cair no mármore. Minha cabeça bateu no chão duro com um baque doentio, estrelas explodindo atrás dos meus olhos.

Ele se ajoelhou ao lado de Brenda, suas mãos imediatamente abrindo a boca dela, inspecionando os comprimidos, seu rosto uma máscara de preocupação.

"O que ela te deu?", ele exigiu, sua voz tremendo de medo. Então seus olhos se arregalaram. "Clonazepam! Alina, o que você fez?!"

Ele nem olhou para mim. Apenas agarrou Brenda, arrastando-a para o banheiro. Ouvi o som de água correndo, depois ela vomitando. Ele a estava fazendo vomitar. Ele a estava limpando. Minha visão clareou lentamente, e eu o vi, de joelhos no chão do banheiro, suas mãos cobertas pelo vômito dela, sem nenhum traço de nojo em seu rosto. Ele estava realmente limpando os fluidos corporais dela, algo que ele nunca, jamais faria por mim. O homem que usava luvas para tocar uma maçaneta estava agora de mãos nuas, limpando o vômito da boca de sua amante grávida.

Ele finalmente se levantou, seus olhos em chamas, fixos em mim, onde eu ainda estava deitada no chão.

"Sua monstra", ele cuspiu, sua voz carregada de puro veneno. "Você não podia ter filhos, então tenta destruir os meus? Você está doente, Alina. Verdadeiramente doente."

Minha respiração falhou. Doente. Sim, eu estava doente. Doente dele, doente de suas mentiras, doente de sua hipocrisia. Mas enquanto eu estava ali, sentindo a dor latejante na minha cabeça, uma clareza arrepiante me invadiu. Isso não era loucura. Isso não era um surto psicótico. Isso era ódio puro e não adulterado. E eu o abracei. Era a única coisa que me mantinha viva.

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