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Capa do romance A Dívida que nos Uniu

A Dívida que nos Uniu

Pedro Alencar é um fazendeiro viúvo de 45 anos que vive isolado em suas terras. Sua rotina solitária muda drasticamente quando José Oliveira, para quitar uma dívida, oferece sua filha Ana em casamento. Aos 22 anos, a jovem rebelde e livre é forçada ao acordo, mas não pretende se submeter ao marido frio. Após um acidente, a tensão entre eles dá lugar a uma conexão profunda. O que era obrigação vira respeito e um amor inesperado entre dois corações distintos.
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Capítulo 3

Os meses seguintes foram um exercício lento de convivência, sem pressa, sem promessas. Ana ficou , não porque se apaixonou de repente, mas porque, pela primeira vez, sentiu que podia respirar sem o peso de uma coleira invisível.

Pedro não cobrou nada. Não tentou beijá-la, não invadiu seu espaço, não perguntou "e agora?". Apenas continuou sendo quem era: um homem de rotina, de poucas palavras, mas de ações consistentes.

A amizade começou nas coisas pequenas, quase sem que percebessem.

Uma manhã chuvosa, Ana desceu para a cozinha e encontrou o café já coado, uma xícara fumegante esperando por ela na mesa. Ao lado, um prato com pão de queijo fresco, daqueles que ela mesma o ensinara a fazer semanas antes, quando reclamara que o dele ficava seco.

- Fiz errado de propósito pra você reclamar - disse Pedro, sem olhar para ela, concentrado em limpar a faca.

Ana sentou-se, pegou um pãozinho quente e deu uma mordida.

- Tá bom. Mas da próxima vez coloca mais queijo.

Ele deu um meio-sorriso, o primeiro que ela viu que não era forçado.

- Anotado.

Outra tarde, Pedro voltou do curral com o braço sangrando: um arame farpado o pegara fundo. Ana estava na varanda lendo um livro velho que encontrou na estante da sala. Quando o viu, largou o livro no chão e correu para dentro.

- Senta aí - ordenou ela, já pegando a caixa de primeiros socorros.

Pedro obedeceu sem discutir, sentando na cadeira da cozinha. Ana limpou o corte com cuidado, os dedos leves contrastando com a força que ele usava no dia a dia.

- Você é péssimo em se cuidar - murmurou ela.

- Nunca precisei.

- Agora precisa.

Ele a observou em silêncio enquanto ela passava o antisséptico e fazia o curativo. Quando terminou, Ana ergueu os olhos e encontrou os dele fixos nela, não com desejo, mas com uma gratidão quieta.

- Obrigado - disse ele, simplesmente.

Ana deu de ombros, desconfortável com a sinceridade.

- Não foi nada. Só não quero ter que limpar sangue do chão toda semana.

Mas naquela mesma noite, quando ela foi dormir, encontrou um copo d'água fresco na mesinha de cabeceira e um bilhete pequeno ao lado:

"Pra garganta seca da leitura.

Boa noite."

Ela guardou o bilhete na gaveta, sorrio sem jeito.

As farpas não sumiram, mas mudaram de tom. Viraram brincadeiras disfarçadas, provocações leves.

- Você ronca - disse ela certa manhã, servindo café para os dois.-Do meu quarto eu escuto o som - disse

Ele olhou sério e rebateu

- E você fala dormindo - disse em tom de provocação - Ontem mesmo quando passei pelo corredor, escutei que chamou alguém de "idiota teimoso".

Ana corou levemente.

- Era você.

- Imaginei.

Eles riram - um riso curto, mas genuíno.

Pedro começou a convidá-la para as tarefas da fazenda, não como obrigação, mas como companhia. Mostrava como castrar bezerros sem machucar, como identificar planta venenosa no pasto, como consertar cerca sem rasgar a mão. Ana aprendia rápido, e às vezes errava de propósito só para ver ele explicar de novo, com paciência que ninguém imaginaria que ele tivesse.

- Você é bom professor - admitiu ela uma vez, enquanto os dois sentavam na sombra de uma jaqueira depois de um dia longo.

- Você é boa aluna... Quando quer. -Completou.

- Às vezes eu quero - respondeu ela, olhando para o horizonte. - Às vezes eu só quero ficar quieta.

- Então fica quieta. Eu fico junto. -Ambos sorriram.

E ali ficaram. Sentados lado a lado, sem precisar preencher o silêncio com palavras. O vento balançava as folhas, o gado mugia ao longe, e pela primeira vez Ana não sentia o vazio da solidão - sentia presença.

Certa noite de lua cheia, Ana não conseguiu dormir. Desceu para a cozinha e encontrou Pedro na varanda, olhando o céu com um copo de água na mão.

- Insônia? - perguntou ela, parando na porta.

- Velha conhecida - respondeu ele. - E você?

- Pesadelo com meu pai - admitiu ela, sentando na cadeira ao lado. - Sonhei que ele aparecia aqui cobrando mais alguma coisa.

Pedro ficou quieto por um momento.

- Ele não vai aparecer . A dívida tá quitada. E se aparecer, eu cuido.

Ana olhou para ele, surpresa com a firmeza na voz.

- Você faria isso?

- Faria. Não por você ser minha esposa no papel. Por você ser... Ana.

Ela sentiu um aperto no peito - não de paixão, mas de algo mais profundo...confiança.

- Obrigada - sussurrou.

Ele apenas assentiu.

Com o tempo, o carinho se instalou nas pequenas gentilezas. Pedro deixava o rádio na estação que ela gostava quando cozinhava. Ana começava a preparar o café dele do jeito que ele preferia, forte, sem açúcar, com um toque de canela que ele nunca pedira, mas sempre sorria ao provar. Ele consertava a janela que rangia no quarto dela sem que ela pedisse. Ela deixava um prato de bolo de fubá na mesa quando sabia que ele tivera um dia ruim com o gado.

Não havia beijos, nem declarações. Não havia pressa, mas havia cuidado.

Havia amizade, havia um vínculo crescendo devagar, feito de respeito mútuo, de silêncios compartilhados, de risadas roubadas e de noites em que um simplesmente ficava perto do outro porque sim.

Uma tarde, enquanto colhiam laranjas juntos no pomar, Ana parou e olhou para ele.

- Sabe, Pedro... eu não imaginava que ia gostar de ficar aqui.

Ele colheu uma laranja madura e colocou na cesta dela.

- E eu não imaginava que ia gostar de ter você aqui.

Ana sorriu - um sorriso leve, verdadeiro.

- Então a gente continua assim? Sem forçar nada?

- Continua. No nosso tempo.

Eles voltaram para casa lado a lado, as cestas cheias, o sol se pondo atrás das montanhas. Não havia romance ainda,mas havia algo talvez mais raro: duas pessoas que, depois de tudo, escolheram continuar caminhando juntas, não por obrigação, mas porque, aos poucos, o caminho ao lado do outro começava a parecer o lugar certo.

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