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Capa do romance A Dama do Marajó

A Dama do Marajó

Elise, de 23 anos, enfrenta o luto pelos pais, mortos em condições enigmáticas. Sua rotina pacata é abalada por visões oníricas com um estranho, mergulhando sua realidade em fantasia. A situação se intensifica quando ela resolve investigar o passado da família. Ao mesmo tempo, o retorno de um amigo de infância à ilha, acompanhado por um visitante inesperado, traz novos segredos à tona, transformando sua busca por respostas em um caminho perigoso.
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Capítulo 1

O rochedo no fim da praia parecia bastante atraente para quem estava prestes a terminar sua vida, a paisagem era bastante agradável...

As rochas estavam frias e úmidas, quanto mais próximo da agua mais escorregadias elas ficavam, a beira do rochedo uns dois metros a baixo as ondas batiam violentamente, as gotículas de agua salgada espirravam para todos os lados, eu podia senti-las em meu rosto quando a brisa forte de vento as traziam para cima, tinha um gosto leve de mar salgado, um cheiro suave, uma mistura de peixes e algas marinhas, aqui e ali era possível ver alguns pequenos caranguejos se escondendo nas frestas das rochas.

O que mais me atraia para aquele lugar era a beleza das cores do ouro no pôr do sol e o esverdeado do mar, o som das aves passando todo fim de tarde voltando para seus ninhos numa floresta próximo à costa, a brisa ali era inigualável quase se podia ouvir a voz do vento a cantar com amargura, talvez por ele amar tanto aquele curto momento de intimidade entre as cores, o mar e a despedida do sol. Foi então que olhei para a praia de areias brancas e fina, e lá estava ele sentado olhando igualmente o pôr do sol, senti um aperto no peito... o fato de eu ver uma beleza maior em um fenômeno cotidiano num local mais privilegiado fazia-me sentir um certo remorso. Os lindo cachos acobreados do cabelo dele ao vento me fizeram esquecer o motivo de eu estar ali naquele lugar, mais um passo e tudo o que eu havia passado seria afogado e esquecido assim como as ondas que arrebentavam uma após a outra nas rochas. Elas eram como eu... apenas queria dar um fim a própria vida.

Continuei a fitar aquele homem, então ele virou o rosto e olhou-me, o último raio dourado de sol tocou seus olhos e então aquele brilho revelou a cor do mais puro mel, ele me encarou por uns segundos, era como se soubesse algo sobre mim, algo que nem eu mesma poderia saber. Eu sai correndo do rochedo, descuidada escorreguei e machuquei o joelho, na hora não dei importância a dor, queria apenas chegar a praia e encontrá-lo, finalmente senti a areia ainda quente e fina em meus pés... ele não estava mais ali.

Caminhei lentamente até o local onde o vi sentado, a areia ainda guardava seus rastros, não consegui compreender, ele deveria ter passado por mim ao sair da praia, mesmo que estivesse caminhado pela beira da praia eu ainda o veria, tirei os olhos dele por um único minuto quando escorreguei.

Vi algo na areia que me chamou atenção, era uma concha tinha um tom rosado acetinado, era linda tinha uma espiral perfeita, nenhuma rachadura, abaixei-me e peguei-a, tive uma sensação estranha, era como se tivesse visto aquele objeto antes. Uma rajada mais forte de vento soprou subitamente contra meu rosto, trazendo alguns grãos de areia para meus olhos, passei uma das mãos no rosto, descuidada soltei a concha, o vento cessou então olhei novamente em volta, senti algo no rosto, um leve calor, era confortante, mas estranho, voltei a visão para areia em busca da linda concha que havia encontrado, sumiu, não estava ali, como era possível?

Estava em minhas mão, soltei por um instante, aquilo me deixou atordoada, voltei correndo pro carro e tentei dirigir até a cidade sem causar acidentes, um turbilhão de pensamentos me engoliam enquanto eu segurava o volante. Dirigi por uma longa estrada de chão, de um lado a vasta floresta varzeada, recentemente inundada pela maré cheia deixando pequenos lagos em meio ao capim que ia ficando mais alto dando espaço as grandes arvores que compunham a mata, nas arvores centenas de garças, flamingos e colhereiros já estavam se acomodando em seus ninhos esperando a noite. Do outro lado uma imensa área enlameada, a qual fazia a felicidade dos búfalos durante o dia que iam se refrescar em seu banho de lama. Sempre tive medo dessas criaturas monstruosas, negras de chifres imensos, principalmente quando estavam à beira da estrada, mas eu estava tão pensativa que não dei a mínima para eles hoje. Finalmente avistei o asfalto gasto e esburacado, dirigi por mais uns trinta minutos, cheguei em casa segura, ainda viva, respirando, coração batendo.

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