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Capa do romance A Criada

A Criada

Angelique Lacey aceita sua vida comum em um mundo dominado por magos. Contratada como faxineira em uma escola de magia, ela atrai a atenção de Charles Prescott, um dos professores mais desejados da instituição, que enxerga nela algo especial. Ele propõe um acordo audacioso: oferece auxílio acadêmico em troca de serviços exclusivos. Agora, Angelique deve atuar como sua criada pessoal, estando disponível para qualquer desejo ou necessidade do enigmático mago.
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Capítulo 2

Ponto de Vista Angelique Lacey

Jones não ficou nada feliz em saber que precisava trabalhar naquela manhã antes de me colocar para raspar chicletes o dia todo. Ele se esforçava para tratar os outros com respeito, tanto que parecia que ia explodir a qualquer momento, mas para mim ele apenas sorria e dizia 'claro, Angie', mesmo que eu nunca tivesse dito para me chamar assim.

Não havia muita gente que chamava meu nome e certamente ninguém nos últimos quinze anos usava esse apelido.

- Esses canos estão obstruídos a anos - ele disse assim que saiu da sala carregando uma mala de ferramentas, David seguiu pelo corredor e me coloquei atrás dele.

- Eu não quero atrapalhar, David. Posso ficar em outro quarto por enquanto.

- Do que ia adiantar? O encanamento é o mesmo para toda a ala dos funcionários - ele rapidamente percebeu a forma rude de suas palavras e sorriu sem jeito - Angie.

- Mas você disse que está obstruída a anos.

- Sim.

- E o seu quarto fica na ala dos funcionários.

- Sim, sim.

- Onde você toma banho?

- O sol já está queimando, devia ter trazido um chapéu.

Ele estava certo, o sol ardeu na pele assim que pisei do lado de fora e ainda tivemos que andar em torno do castelo até a parte de trás, a tubulação externa passava pela superfície, pela área arborizada e parecia terminar no lago.

- Aqui está - David se abaixou examinando uma raiz que atravessava o cano.

A terra sob meus pés estava úmida e fofa, quase como um pântano.

- A água está vazando esse tempo todo?

Ele deu de ombros e começou a serrar a raiz, ouvi um som estranho atrás de mim e olhei na direção, mas não vi nada, a poodle de Jones se agitou também.

- Você ouviu? - perguntei para a cadela - porque eu ouvi.

- Devem ser ratos, Lili adora comer ratos.

- Que cadela encantadora - a verdade é não fui com a cara de Pequena Lili, o que parecia recíproco e estúpido ao mesmo tempo.

Cães no geral não me incomodam mas o bicho me olhava esquisito, e parecia me avaliar com cautela sempre que me aproximava, como se desconfiasse de mim.

- Ah, você está aí - se aproximou uma mulher jovem, saltando as pequenas pedras, ela olhou de Jones para mim e então apontou - quem é essa?

- Minha assiste...

- Angelique Lacey - interrompi antes que ele me diminuísse - serviços diversos.

- Se são dois agora, por que as minhas carteiras ainda estão arranhadas? Precisam polir todas antes do retorno dos alunos.

- Sim, professora Dafne. Mas preciso arrumar o encanamento para a Angie, talvez amanhã.

Ela torceu o nariz para mim e devolvi um sorriso discreto antes que ela partisse. Mas o que ela queria? Que servisse o café na sala dos professores cheirando a suor?

- Todo mundo nessa escola vive de mau humor?

- Meu humor é excelente quando não tenho que lidar com os alunos, vê? - ele abriu um sorriso enorme, eu ri mas então ouvi aquele som de novo.

Claro que eu sabia que a floresta era cheia de animais selvagens e comuns mas isso não me deixava menos nervosa. Lili levantou as orelhas, me deixando alerta e então correu para trás de um arbusto, olhei para Jones que pareceu muito aborrecido.

- O que está esperando? Vai atrás dela.

Eu me assustei com a brutalidade que ele falou e me apressei em fazer o que pediu. Dei a volta no arbusto que se agitava e Pequena Lili estava prestes a abocanhar o pescoço de um coelho.

- Não - empurrei a cadela que me acertou uma patada no dorso da mão - ai, sua...

Respirei fundo e peguei o coelho na mão, era pequeno, possivelmente um filhote e estava muito assustado.

- O que está havendo?

- A sua cadela - me levantei saindo de trás do arbusto - ela quase matou esse filhote.

- Como eu disse, ela gosta de comer ratos.

- É um coelho.

- Como eu disse - ele abriu o sorriso novamente - quer saber, Angie. Porque não vai dar uma volta enquanto eu termino isso? Deve demorar algumas horas.

Foi gentil da parte dele, olhei atravessado para a cadela que parecia furiosa, indo se esfregar no dono atrás de carinho. Naquele momento decidi proteger o bebê da poodle malvada com a minha vida.

O jardim não ficava longe dali e achei que estar perto caso David precisasse de ajuda era o mínimo que eu poderia fazer. Meu rosto já estava dolorido e queimado do Sol quando decidi parar sob uma sombra.

- Você vai amar sua nova casa, o quarto mais parece uma cela de prisão - aproximei o rosto e o coelho moveu seu focinho na direção do meu nariz.

***

Ponto de Vista Charles Prescott

Entrei na sala dos professores cumprimentando brevemente os que ali estavam, essa não era a sala mais confortável em Cramburg mas era a única que dava uma visão completa do jardim, assim eu podia aproveitar a vista sem me queimar no Sol.

Peguei um livro que pretendia ler e me sentei na poltrona ao lado da janela para segundos depois Angelique Lacey quebrar a monotonia de arvores e grama com sua presença, indo se abrigar em uma sombra bem no meu campo de visão.

- Essa garota ainda vai causar problemas - Dafne entrou batendo o pé.

- Quem, Dafne? - Erika questionou de imediato, atraindo minha atenção para a conversa.

- A nova faxineira, fazendo Jones perder o dia todo com o encanamento enquanto tem muito para se fazer nas salas.

- Está com problemas?

- Sim, as carteiras estão riscadas.

- Não entendo por que precisa do Jones para isso, normalmente eu só o chamo quando quero que tire algum animal peçonhento.

- É o trabalho dele.

- Sim, mas...

Aquele assunto não estava tão interessante quanto pensei, me concentrei no livro e dois minutos depois em Lacey, suas mãos em concha seguravam uma bola de pelos negros junto ao rosto.

Havia uma história infantil sobre uma jovem bonita que se enfiava em uma floresta para fugir da madrasta e falava com animais, mas não consegui me lembrar o nome.

As horas de passaram sem que ela se movesse, sua postura e resiliência era tão impecável que sua presença se tornou monótona e passei a reparar em outras coisas, principalmente na sombra em que ela estava, á direita da árvore, mesma posição que estava quando Lacey chegou.

Intrigado, inclinei na poltrona observando as outras árvores pelo longo caminho em torno do castelo, as sombras acompanhavam a posição do Sol.

Jones chegou e depois de alguns segundos, Lacey colocou a pequena bola de pelos entre os seios, acomodando qualquer que fosse o animal entre os montes macios que tanto chamavam a atenção. Ela acompanhou o zelador e logo sumiram de vista.

A sombra em que ela estava deslizou rapidamente para o lado oposto ficando na mesma posição das outras.

- Braçal, sei.

Aquilo me deixou intrigado o suficiente para agir, fechei o livro e saí daquela sala rumo ao escritório do diretor. Arthur não parecia ocupado, como sempre.

- Faz algum tempo que não vem conversar comigo, Charles.

- Não há muitos assuntos durante as férias.

- E o que mudou? - ele levantou uma sobrancelha - ou seria, quem?

- Eu não sabia que Cramburg precisava de outra pessoa para serviços de limpeza e manutenção.

- Claro que não - ele sorriu apesar de eu achar que sua resposta foi em tom de provocação - mas esse castelo é muito grande para Jones e Pequena Lili cuidarem sozinhos, ainda mais com as exigências dos professores.

- E acha que foi uma boa escolha? Não seria mais apropriado uma pessoa com magia?

- Então já sabe da condição dela.

- É real? Ela é um braçal?

- É o que ela diz, não é?! - a condescendência dele me incomodou, mesmo no fundo eu sabendo que só precisa ser direto e perguntar e essa relutância era um defeito meu - acha que eu devia demiti-la?

- Não faz diferença, a menos que ela atrapalhe meu trabalho.

- Achei que você, mais que qualquer pessoa, gostaria de ter Lacey por perto. Tendo em vista o passado que tiveram.

- Passado? - eu fiquei absolutamente confuso - eu não a conheço.

- Então, não se lembra - ele se levantou e caminhou pela sala até um pequeno armário no canto de onde tirou um pequeno estojo de cristais - creio que me viu emprestando algumas memórias da Angelique, acho que essa pode te interessar.

Peguei a memória em sua mão e lentamente caminhei até a poltrona, o avermelhado e levemente, fechei os olhos e inclinei na poltrona colocando o cristal sobre a testa, ele começou a girar e logo as coisas em volta haviam mudado, eu não queria admitir mas aquilo me deixava ansioso, se Angelique cruzou comigo no passado não viu nada bom sobre mim. Mesmo assim abri meus olhos sem pensar.

A visão começou confusa, estava balançando muito, eu conseguia ver uma calçada que ia passando rapidamente e mechas de cabelo na frente e logo percebi que Angelique estava sendo carregada.

- Aqui - disse a voz masculina de quem a segurava no colo.

Ela foi posta dentro do carro, no banco traseiro, o homem segurou o rosto dela com as duas mãos e a beijou na testa de forma longa e apertada, era nítido o nervosismo dele.

- Papai já volta, está bem? Fique parada e quieta.

- Pai? - sua voz era tão infantil que não devia ter mais de cinco anos.

- Eu te amo, Angie.

Ele fechou a porta, ela ficou com medo, virando a cabeça de um lado para o outro nervosamente, não estava vendo o pai. Levou alguns minutos até que ele voltasse, ainda mais ofegante. Mas assim que ele encostou no veículo um homem apareceu, apontando a varinha para o homem, um extremista mascarado.

Levantei a cabeça, eu próprio estava em choque, me lembrava daquela cena. O ebelde era eu, Edward tinha vários sobrenomes, um para cada cidade onde parava. A insurgência estava atrás dele há anos desde que ajudou uma desertora a entrar na França de forma ilegal.

Naquela noite, estávamos em cinco, averiguando uma área depois que um taverneiro informou que Edward foi visto por ali. Eu o encontrei, não pude fazer alarde para que ele não fugisse, mas o encurralei, ele podia ter corrido mas não fez isso, parou com as costas em um carro, olhei para o vidro e a vi, uma garotinha assustada com os olhos completamente abertos.

Os cabelos dela flutuavam em torno do rosto como se estivessem embaixo d'água.

"Minha filha não", ele suplicou. Eu tive que fazer uma escolha, matar os dois, matar ele e deixar que os outros acabassem com a menina ou deixá-los partir. Optei pela última, Edward entrou no carro e deu partida, usei um feitiço para distrair do som do veículo e fingi ser atingido.

Nunca consegui explicar o que houve naquele dia e tive que passar pela vergonha de admitir que fui nocauteado por um braçal inferior.

- Isso foi á mais de quinze anos. Eu era diferente - disse sem conseguir encarar o diretor, a vergonha pelas coisas que eu fiz me machucaram.

- Você salvou os dois.

- Por que ela acredita que é braçal?

- As feridas são mais profundas do que parecem e essas eu não posso te mostrar - ele caminhou até a porta e a abriu para que eu passasse - tenho certeza que vai descobrir sozinho.

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