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Capa do romance A Cova Que Cavaram Para Ela

A Cova Que Cavaram Para Ela

Após um grave acidente, fui abandonada pela minha família e pelo meu noivo, Caio, que me desejou a morte enquanto preparava seu casamento com minha meia-irmã. Declarada morta e enterrada sob mentiras, sobrevivi. Cinco anos depois, ressurjo como Isabela Ricci, uma autora de sucesso casada com um poderoso CEO. Voltei apenas para reivindicar a herança de minha mãe, mas o destino me coloca diante de Caio, que agora chora sobre o túmulo da mulher que ele mesmo descartou.
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Capítulo 3

Ponto de Vista: Isabela

Caio ficou paralisado, como um cervo pego pelos faróis, enquanto minhas palavras pairavam no ar fresco do outono. Não lhe dediquei outro olhar. Meu passo acelerou, cada um me levando para mais longe do passado ao qual ele tentava se agarrar desesperadamente.

"Isabela! Espere!", ele chamou, sua voz tingida com uma estranha mistura de desespero e confusão. "Donato... seu pai... ele quer te ver! Teremos uma festa de aniversário hoje à noite, uma pequena reunião de família. Por favor, apenas venha! Fale com ele!"

Hesitei por uma fração de segundo. A ideia de encarar Donato, de voltar para aquela casa dos horrores, fez meu estômago se contrair. Mas então a imagem do túmulo solitário da minha mãe brilhou em minha mente, e a raiva se acendeu novamente. Todos eles me abandonaram. Por que eu deveria olhar para trás? Empurrei o portão enferrujado do cemitério e saí para a rua, fazendo sinal para um táxi que passava.

Meu coração martelava contra minhas costelas enquanto o táxi se afastava, deixando o cemitério e Caio para trás. As velhas feridas, infeccionando logo abaixo da superfície, começaram a doer. Donato Dantas. Meu pai. O homem que fora tão consumido pela culpa por seu caso extraconjugal que me apagou sistematicamente de sua vida para expiar um pecado que ele cometeu.

Lembrei-me do funeral da minha mãe, cinco anos atrás. Minha perna ainda estava engessada, meu corpo machucado e quebrado pelo acidente que eles convenientemente ignoraram. Donato estava na frente, seu rosto manchado de lágrimas, mas seu braço estava em volta de Aline, que soluçava dramaticamente em seu ombro. Ela era sempre a vítima. Mesmo então, depois que minha mãe, sua esposa, morreu, ele escolheu sua filha ilegítima, o produto de sua traição, em vez de mim, sua filha legítima.

"Isabela, não seja tão dramática", ele sibilou para mim quando tentei me aproximar, apoiando-me pesadamente em minhas muletas. "Aline precisa de consolo agora. Você está apenas chamando a atenção para si mesma."

Donato sempre me viu como a "forte", aquela que aguentava tudo. Essa força se tornou minha maldição. Significava que Aline sempre precisava de mais, merecia mais, exigia mais. Ela conseguiu a atenção do meu pai, a proteção do meu irmão Diego e, eventualmente, até mesmo meu noivo, Caio.

O acidente de carro que quase me matou foi o prego final no caixão. Eu estava deitada em uma cama de hospital, mal consciente, quando a enfermeira me trouxe o telefone. Era Donato.

"Filha?", sua voz era rude, distante. "Como você está?"

"Pai", sussurrei, minha voz fraca. "Eles disseram que é grave. Minha coluna... eles não têm certeza se vou andar de novo."

Houve uma pausa. Uma pausa longa e agonizante. "Bem, você sempre foi uma lutadora, Isabela. Você vai ficar bem."

"Você pode vir?", implorei, lágrimas brotando. "Por favor, estou com tanto medo. Eu só preciso de você aqui."

Outro suspiro. "Isabela, você sabe que não posso. É o grande dia da Aline amanhã. O casamento dela com o Caio. Não posso decepcioná-la. Toda essa história com o seu acidente... já estragou o clima. Ela está tão chateada. Preciso estar lá por ela."

Lembro-me de desligar o telefone, o plástico frio escorregando de meus dedos trêmulos. A enfermeira, uma mulher de rosto gentil cujos olhos continham uma pena que eu não suportava, o pegou gentilmente. Ela não disse nada, mas seu olhar dizia tudo. Foi então que eu soube. Eu estava verdadeiramente sozinha. Minha família havia escolhido Aline, escolhido uma mentira, escolhido a conveniência em vez da minha vida.

Inconscientemente, toquei a cicatriz desbotada que serpenteava pela minha clavícula, uma dor fantasma persistindo mesmo depois de todos esses anos. Aquela garota, aquela que eles deixaram para morrer, estava enterrada sob aquela pedra. E já foi tarde.

O táxi parou em frente ao luxuoso flat que eu havia alugado. Era uma base temporária, uma zona neutra, muito distante dos fantasmas do meu passado. Paguei o motorista e entrei, o silêncio dos cômodos vazios uma mudança bem-vinda do barulho do cemitério.

Meu telefone vibrou. Era uma chamada de vídeo de César. Meu coração se aqueceu instantaneamente. Atendi, e seu rosto bonito preencheu a tela, seguido pelo nosso filho, Léo, rindo ao fundo.

"Mamãe!", Léo gritou, seu rostinho radiante. "Quando você volta pra casa? O papai disse que você está numa missão super importante!"

"Logo, meu amor, muito logo", eu disse, um sorriso genuíno finalmente enfeitando meus lábios. "A mamãe está com saudades."

César sorriu, seu olhar cheio do amor firme e incondicional que eu sempre desejei. "Tudo bem, meu bem? Você parece um pouco... despenteada."

"Só um dia longo", menti suavemente. "Lidando com papelada."

Nesse momento, a tela mudou, e meu pai adotivo, Arthur Ricci, apareceu. Seus olhos gentis continham uma pitada de preocupação. "Isabela, querida, tudo está correndo conforme o planejado, confio? Arnoldo me informou que você chegou em segurança."

Arnoldo. Meu irmão adotivo, o arquiteto brilhante que me encontrou quebrada e abandonada e me trouxe para a família Ricci. Ele provavelmente já estava cuidando de mim, mesmo de longe.

"Está tudo bem, pai", eu o tranquilizei. "Apenas amarrando as pontas soltas. Estarei de volta antes que você perceba."

"Bom", disse Arthur, sua voz firme. "E lembre-se, você nos tem agora, querida. Qualquer coisa que precisar, qualquer problema, nos ligue. Nós somos sua família."

Um nó se formou na minha garganta. Família. A palavra, antes tão manchada, agora tinha gosto de calor e segurança. Essas eram as minhas pessoas. Minha verdadeira família.

"Eu sei, pai", sussurrei, minha voz embargada de emoção. "Eu sei."

Conversamos por mais alguns minutos, Léo contando sobre seu dia, César verificando meu humor, Arthur me lembrando de comer direito. Quando finalmente desliguei, uma profunda sensação de paz se instalou sobre mim. Os fantasmas do cemitério, a amargura do passado, pareciam recuar, substituídos pela realidade vibrante e amorosa do meu presente. Era um lembrete gritante do que eu havia ganhado e do que eu havia verdadeiramente deixado para trás.

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