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Capa do romance A conselheira amorosa

A conselheira amorosa

No caos do ensino médio, Aurora Backer destaca-se como uma conselheira amorosa talentosa, fruto da criação por pais especialistas em comportamento. Embora resolva os dilemas de todos, ela carrega o trauma de uma traição devastadora que despedaçou seu coração. Decidida a se fechar para o amor, sua resolução é testada pela chegada de Dante. Ele ameaça levá-la novamente ao abismo emocional, mas Aurora descobre que enfrentar esse perigo pode ser sua única salvação.
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Capítulo 3

AURORA

Parecia que o tempo se arrastava, cinco minutos pareciam uma hora, uma hora pareciam dois dias. Após uma aula de biologia maçante, finalmente eu estava livre. Não perdi tempo, arrumei meus livros dentro da bolsa e sai da sala apressada, não queria conversar, nem brincar com ninguém, tudo o que eu queria era minha casa e minha cama.

— Apressada, nanica? — Perguntou Clay, surgindo do nada ao meu lado no corredor, usando um dos apelidos “carinhosos” que havia me dado.

— Preciso da minha cama. — Resmunguei, continuando a caminhar e saindo do prédio escolar ao lado do meu amigo.

Seguimos sem pausas para o estacionamento e logo eu estava me jogando dentro do Jeep, me acomodando no banco do carona e esticando as pernas, apoiando os pés no painel. Aquilo irritava Clay na maior parte das vezes, mas eu nunca deixava essa mania de lado. Principalmente por que, por eu ser pequena, minhas pernas se encaixavam perfeitamente ali, tornando a posição muito confortável.

— Vamos logo, sua irmã deve estar à beira de um ataque cardíaco. — Falou Clay, ligando o carro, pisando no acelerador e saindo do estacionamento, deixando nossa escola para trás. — Vamos enfrentar a fera.

Não demorou mais do que alguns minutos para que chegássemos a Claremonth High School, ou CHS, como eu gostava de chamar. Encontramos uma Evangeline extremamente irritada e emburrada de pé no meio fio, Clay parou o carro ao lado dela, destravando as portas. Eva entrou no carro ainda emburrada, cruzando os braços e nos fulminando com o olhar.

— Desculpa, Eva. — Clay falou com voz manhosa, fazendo minha irmã revirar os olhos, mas eu sabia que ela já estava com o coração amolecido.

Clay olhou para mim e deu um risinho de canto discreto, ligando o carro novamente e acelerando, seguindo o trajeto para minha casa, onde provavelmente jantaríamos juntos, de novo.

Qualquer um poderia enxergar a queda que Evangeline tinha por Clay, queda esta que hoje em dia mais parecia um abismo, e perdurava desde seus treze anos de idade. Hoje, com quinze anos, Eva ainda não tinha coragem de declarar seus sentimentos. Eu não a culpava por isso, Clay tinha dezessete anos e era meu melhor amigo, praticamente a viu crescer e eu não sabia bem se havia reciprocidade.

O caminho até minha casa foi completamente silencioso.

Clay estava com os olhos na estrada, ele odiava ser incomodado enquanto dirigia, tinha muito medo de perder a atenção e acabar provocando um acidente. Eva estava com seus fones de ouvido, cantarolando uma música qualquer e eu estava num estado meio adormecido. Quando finalmente o estacionou na frente da minha casa, tomei coragem para me levantar do banco, pegando minha bolsa e saindo do carro. Arrastei-me para dentro, largando minha mochila na sala mesmo e, após olhar para os lados e chamar por minha mãe algumas vezes, constatei que a casa estava vazia. Caminhei até a cozinha e encontrei a mesa posta, as comidas categoricamente embaladas e dispostas no centro, como só dona Victória faria. Encontrei um pequeno bilhete colado no plástico filme que embalava uma bela travessa de macarrão.

“Precisei sair urgentemente, tenho uma palestra de última hora para esta tarde e provavelmente chegarei só depois das nove. Comam direito e não façam besteira.

Mamãe.”

Não sentia fome alguma, as segundas eram sempre péssimas para mim e eu sempre acabava cansada demais. Por isso, somente subi as escadas, segui para meu quarto, abrindo a porta e tirando minha camiseta, minha calça e pegando minha toalha, precisava de um bom banho antes de dormir um pouco.

Não demorou muito e eu logo estava na cama, havia fechado todas as cortinas, o quarto estava frio e escurinho, o clima perfeito para hibernar um pouco. Alguns instantes antes de adormecer de vez, senti um peso ao meu lado na cama, abri só um pouquinho os olhos e vi Clay deitado ao meu lado, já com os olhos fechados. Os cabelos dele estavam meio úmidos e ele vestia somente uma bermuda cheia de desenhos de doces. Depois disso eu apaguei.

Quando acordei já era noite, olhei para o relógio que estava sobre o criado ao lado da minha cama e vi que já passava das sete. As pernas de Clay estavam em cima de mim e ele babava, abraçado a um travesseiro, ressonando bem baixo. Levantei com cuidado, bocejando e esticando o corpo. Caminhei silenciosamente para fora do quarto, descendo as escadas e parando perto da porta dos fundos, vendo uma cena que com certeza merecia ser apreciada e que me fez sorrir.

Meus pais dançavam juntos, bem próximos, olhando nos olhos um do outro e com largos sorrisos nos lábios. Ambos se moviam com delicadeza e leveza, seus olhares transmitiam o mesmo amor que sempre vi em seus rostos. Eles sempre pareciam um casal de adolescentes apaixonados, só que com quarenta anos de diferença e bem mais bonitos.

Mamãe e papai eram a prova viva de que o amor atravessava o tempo e as barreiras, se ambas as partes estivessem dispostas a lutar por isso. Eles não eram iguais, tinham pensamentos divergentes e manias que irritavam um ao outro constantemente, mas sempre estavam dispostos a melhorar e aprender, tanto por si mesmos, quanto pelo seu casamento e pelo amor que cultivavam todos os dias.

Dona Victoria tinha 16 anos quando conheceu o senhor Paul. Segundo ela, não foi amor à primeira vista e sim algo que foi construído, pedra por pedra, se tornando um belo castelo, que vez ou outra precisava de reparos. Meu pai insistia em dizer que a amou desde o primeiro dia em que a viu. Ele sempre reclama sobre como foi difícil atrair sua atenção, mas também faz questão de repetir várias e várias vezes que todas as tentativas valeram a pena. Olhei novamente para o jardim, eles estavam no meio de um beijo, cheio de amor e carinho, mas também intenso e muito feroz. Fiz uma careta por alguns instantes e me afastei, fechando as cortinas e saindo dali na ponta dos pés.

Vê-los tão apaixonados só me fez pensar em como eram maravilhosos, não só como pais, mas como pessoas. Lembro-me da primeira vez que disse que queria que meus pais me ensinassem a ajudar as pessoas como eles faziam, eu tinha somente oito anos. Meu pai caiu no choro e minha mãe abriu um grande sorriso, desde então ambos me ensinam a tentar compreender até as pessoas mais complicadas. Quando fiz quatorze anos comecei a visitar mais o trabalho da minha mãe, já que antes eu era muito nova para “aprender sobre as obscenidades que a senhora Victoria chamava de profissão” como ela mesma dizia. Olhando para mim hoje percebo que sou a mistura perfeita de Victoria e Paul, aprendi a compreender as pessoas com meus pais e me orgulho muito disso.

O amor deles me inspira todos os dias.

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