
A Cicatriz do Meu Ventre Vazio
Capítulo 3
Dois dias depois, recebi alta do hospital.
O meu pai, o homem que se casou com a mãe de Sofia depois da minha mãe morrer, veio buscar-me.
Ele não disse uma palavra durante todo o caminho. O seu silêncio era pesado, cheio de acusações não ditas.
Quando chegámos a casa, a casa que eu partilhava com o Pedro, a porta abriu-se antes mesmo de eu tocar na campainha.
Sofia estava lá, com os olhos vermelhos e inchados. Ela correu para os braços do meu pai, a soluçar.
"Pai, o Miau ainda não voltou! Eu procurei por todo o lado!"
O meu pai abraçou-a com força. "Calma, querida. Vamos encontrá-lo."
Pedro saiu de trás dela, o seu rosto uma máscara de preocupação. Ele olhou para mim por um segundo, os seus olhos frios, antes de se virar para Sofia.
"Eu vou procurar de novo, Sofia. Não te preocupes."
Eu passei por eles como se fossem invisíveis e entrei em casa.
A casa estava uma bagunça. Pratos sujos na pia, roupas espalhadas pelo chão. No meio da sala de estar, havia uma caixa de areia nova e vários brinquedos para gatos.
Eles tinham transformado a nossa casa num santuário para um gato que nem sequer estava lá, enquanto eu estava a perder o nosso filho num hospital.
Fui para o nosso quarto. As minhas coisas estavam todas amontoadas num canto, como se eu fosse uma estranha.
No lugar delas, na minha mesinha de cabeceira, havia uma fotografia de Sofia, a sorrir.
Sentei-me na cama, o meu corpo exausto. A dor física não era nada comparada com a dor emocional que me rasgava por dentro.
Ouvi-os a falar na sala. A voz do meu pai, baixa e zangada. A do Pedro, defensiva. A de Sofia, chorosa.
"Ela quer o divórcio!" disse o meu pai, a sua voz cheia de desprezo. "Depois de tudo o que o Pedro fez por ela!"
"Eu não sei o que se passa com ela," respondeu o Pedro. "Ela está a agir de forma irracional."
"Ela sempre teve ciúmes de mim," soluçou Sofia. "Ela nunca gostou que tu te desses bem comigo."
Fechei os olhos. Ciúmes. Era isso que eles pensavam.
Abri a gaveta da mesinha de cabeceira. Os papéis do divórcio que eu tinha mandado preparar há meses, mas nunca tive a coragem de usar, estavam lá.
Peguei numa caneta e assinei o meu nome na linha pontilhada.
Sem hesitação. Sem arrependimento.
Levantei-me e caminhei até à sala. Eles calaram-se quando me viram.
Coloquei os papéis na mesa de café, à frente do Pedro.
"Eu assinei," disse eu, a minha voz firme. "Agora é a tua vez."
Pedro olhou para os papéis, depois para mim, os seus olhos arregalados de incredulidade.
"Lúcia, não sejas ridícula."
"Eu não estou a ser ridícula," respondi calmamente. "Estou a ser realista. Acabou, Pedro."
Virei-me e voltei para o quarto, fechando a porta atrás de mim.
Ouvi os seus gritos, mas ignorei-os. Peguei numa mala e comecei a arrumar as minhas coisas.
Eu não tinha para onde ir, mas qualquer lugar era melhor do que ali.
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