
A Chuva e a Luta: O Filho que Ele Abandonou
Capítulo 2
Naquela noite, a chuva caía forte, batendo contra as janelas do hospital.
Eu estava deitada na cama, o corpo pesado e dolorido. Ao meu lado, o berço estava vazio.
O meu filho, nascido há apenas três dias, estava na unidade de cuidados intensivos neonatais, lutando pela vida.
Peguei no meu telemóvel e liguei ao meu marido, Leo.
A chamada tocou várias vezes antes de ele atender. A sua voz soava distante, abafada por música alta e risos.
"O que foi, Ana? Estou ocupado."
"Leo, o médico ligou," eu disse, a minha voz a tremer. "Ele disse que o estado do nosso filho piorou. Precisamos de decidir sobre o tratamento. Custa muito dinheiro."
Houve uma pausa. Do outro lado da linha, ouvi a voz da minha sogra, Clara, a gritar.
"Diz-lhe que não temos dinheiro! Aquele miúdo é um poço sem fundo! É melhor desistir dele!"
Depois, ouvi a voz da irmã mais nova do Leo, Sofia.
"Leo, a Daniela está aqui. Ela trouxe o vinho caro que tu adoras. Não deixes a tua mulher estragar a festa."
Daniela. A ex-namorada do Leo. A mulher que a minha sogra sempre quis como nora.
Senti um aperto no peito.
"Leo, é o nosso filho," supliquei. "Ele precisa de nós."
"Ana, já te disse, estou ocupado," ele respondeu, a sua voz fria e impaciente. "A minha mãe está a organizar esta festa para mim, para celebrar o meu novo emprego. Não posso simplesmente ir embora. A Daniela até veio de outra cidade. Seria uma falta de respeito."
"E o nosso filho? O nosso filho a morrer no hospital não é importante?"
"Não sejas tão dramática," ele cortou. "Os médicos tratam disso. Amanhã falamos. Para de me ligar."
Ele desligou.
Olhei para o ecrã escuro do telemóvel. As lágrimas que eu segurava começaram a cair.
O meu filho estava a lutar para respirar, e o pai dele estava a celebrar com a ex-namorada.
A minha sogra, a avó dele, chamou-o de poço sem fundo.
Naquele momento, eu soube que o meu casamento tinha acabado. Não havia mais nada a salvar.
Tentei ligar novamente, mas a chamada foi direta para o voicemail. Ele tinha-me bloqueado.
Claro que tinha. A festa dele era mais importante. A Daniela era mais importante.
O meu filho, o nosso filho, não era nada para eles.
Agarrei nos lençóis da cama do hospital, o tecido a amassar-se nas minhas mãos. A dor no meu corpo da cesariana não era nada comparada à dor no meu coração.
Eu estava sozinha nisto. Completamente sozinha.
Mas eu não ia desistir do meu filho. Se eles não o queriam, eu queria. Eu iria lutar por ele, mesmo que tivesse de o fazer sozinha.
Levantei-me da cama, ignorando a dor aguda na minha barriga. Vesti-me devagar, cada movimento um esforço.
Tinha de ir ter com o meu filho.
Tinha de lhe mostrar que a mãe dele estava lá.
E depois, eu ia acabar com tudo isto.
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