
A Chama Que Consumiu o Amor
Capítulo 3
Acordei com o som constante de um bip e o cheiro a antissético.
Paredes brancas. Luzes fluorescentes. Um hospital.
A minha barriga estava mais pequena, mas ainda lá. Uma enfermeira estava a ajustar o soro no meu braço.
"O meu bebé...", sussurrei, a garganta seca.
"O seu filho nasceu por cesariana de emergência. Ele é prematuro, mas é um lutador. Está na unidade de cuidados intensivos neonatais."
Um filho. Tivemos um filho.
A porta abriu-se e Pedro entrou, seguido pela sua mãe, Helena.
Pedro parecia cansado, mas não em pânico. A sua mãe tinha a sua expressão habitual de desaprovação suave.
"Ana, graças a Deus estás bem", disse Pedro, aproximando-se da cama. Ele não tentou tocar-me.
"Onde estiveste?", perguntei, a minha voz sem emoção.
Helena respondeu por ele. "Ele estava a ajudar a irmã. A família ajuda-se mutuamente, Ana. A Sofia estava numa situação muito perigosa."
"Um pneu furado é mais perigoso que um incêndio?", olhei diretamente para Pedro.
Ele desviou o olhar. "Tu não percebes. Havia carros a passar a alta velocidade. Ela estava a ter um ataque de pânico. Tu tinhas os bombeiros a caminho."
"Eu tive o nosso filho sozinha, Pedro. No meio de um incêndio."
"Não sejas dramática", disse Helena, a sua voz fria. "O importante é que estão ambos seguros agora. Devias estar grata pelo teu vizinho ter estado lá."
Gratos.
Eu devia estar grata por um vizinho ter feito o trabalho do meu marido.
"O médico disse que o stress do incêndio e a inalação de fumo induziram o parto", disse eu, a olhar para as minhas mãos pousadas na manta do hospital. "Ele é muito pequeno, Pedro."
"Ele vai ficar bem", disse Pedro, com uma confiança que não tinha o direito de ter. "Os rapazes da nossa família são fortes."
A sua mãe acenou com a cabeça, como se isso fosse um facto universalmente conhecido.
"O nome dele é Lucas", disse eu. Era o nome que tínhamos escolhido juntos, meses antes, numa noite em que o futuro parecia simples e feliz.
"Lucas", repetiu Pedro, como se estivesse a provar a palavra. "É um bom nome."
Não houve alegria na sua voz. Apenas uma aceitação cansada.
Ele olhou para o relógio. "Tenho de ir. Tenho de levar a Sofia a casa e ver do carro dela. A minha mãe fica contigo."
Ele inclinou-se, hesitou por um momento, e depois beijou-me a testa. O beijo foi frio, um dever.
Quando ele saiu, Helena sentou-se na cadeira ao lado da minha cama.
"Tens de entender, Ana", começou ela, no seu tom de quem dá uma lição. "Pedro tem um grande coração. Ele sente a responsabilidade de proteger a sua irmã. Ela é mais frágil do que tu."
Frágil. Eu, que tinha acabado de sobreviver a um incêndio e a um parto de emergência, não era frágil. Sofia, que teve um pneu furado, era.
A lógica era tão distorcida que me deixou sem palavras.
Fechei os olhos, fingindo cansaço.
"Preciso de descansar", murmurei.
"Claro, querida. Descansa", disse ela.
Mas eu não conseguia descansar. Com os olhos fechados, a única coisa que via era a imagem de Pedro a escolher afastar-se de mim e do nosso filho em perigo.
A escolha já tinha sido feita. Ele só ainda não sabia.
Você pode gostar





