
A Chama da Vingança
Capítulo 2
O cheiro a queimado e a fumo ainda pairava no ar quando abri os olhos.
A sirene de uma ambulância soava ao longe, um som agudo e persistente que cortava o silêncio da noite.
O meu corpo doía por todo o lado, especialmente o meu braço esquerdo, que estava enfaixado e latejava com uma dor surda.
Virei a cabeça e vi o meu marido, Pedro, sentado ao meu lado.
Ele segurava o seu telemóvel, o rosto iluminado pelo ecrã, e sorria.
Não era um sorriso de alívio por me ver acordada, era um sorriso divertido, como se estivesse a ver algo engraçado.
"Pedro?" A minha voz saiu rouca, arranhada.
Ele levantou a cabeça, o sorriso desapareceu, substituído por uma expressão de impaciência.
"Finalmente acordaste. Pensei que ias dormir para sempre."
"O que aconteceu?" perguntei, tentando sentar-me, mas uma dor aguda no meu peito forçou-me a deitar-me novamente.
"O que achas que aconteceu? O restaurante pegou fogo. Tivemos sorte em sair de lá."
O restaurante. O nosso restaurante. O sonho pelo qual trabalhámos durante cinco anos.
As memórias voltaram de repente, o cheiro a gás, o calor intenso, os gritos. Lembro-me de ter empurrado Pedro para a saída de emergência antes de o teto desabar.
"O meu pai... onde está o meu pai?" perguntei, o pânico a subir pela minha garganta.
"O teu pai está bem. Ele está a tratar da Sofia."
A voz dele era fria, desprovida de qualquer emoção.
Sofia. A sua irmã mais nova.
Uma chamada de vídeo interrompeu a nossa conversa. Pedro atendeu imediatamente, o sorriso a voltar ao seu rosto.
"Olá, maninha! Estás a sentir-te melhor?"
No ecrã, vi o rosto pálido de Sofia. Ela estava deitada numa cama de hospital, com o meu pai, Rui, a ajustar-lhe o soro.
"Estou bem, Pedro. Só inalei um pouco de fumo. O pai Rui tem estado a cuidar de mim. Obrigada por me tirares de lá tão depressa. Se não fosses tu, eu..."
A voz dela tremeu.
"Não digas isso," disse Pedro, a sua voz suave e carinhosa. "És a minha irmã. Claro que te ia salvar primeiro."
Salvar primeiro.
As palavras ecoaram na minha cabeça.
Eu era a sua esposa. Eu estava mais perto da explosão. Eu empurrei-o para a segurança.
E ele deixou-me para trás para salvar a irmã dele.
"Pedro," chamei, a minha voz agora firme. "Quero o divórcio."
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