
A Casa Que Ele Perdeu, a Vida Que Eu Ganhei
Capítulo 3
O silêncio na sala era pesado, quase palpável. Pedro olhou para mim, primeiro com incredulidade, depois com uma raiva crescente a nublar o seu rosto.
"Divórcio? Estás a brincar comigo, Ana? Divórcio por causa disto?"
Ele levantou-se, a sua altura a pairar sobre mim.
"Eu sei que estás chateada por causa do jantar, mas pedir o divórcio é um exagero. Estás a ser infantil."
"Infantil? Eu passei a noite num hospital, Pedro. Sozinha. Porque o meu marido estava a cuidar da sua ex-namorada."
A minha voz manteve-se firme, apesar do tremor que sentia por dentro.
"A Sofia precisava de mim! Quantas vezes tenho de te dizer? Ela foi despejada! O que querias que eu fizesse, que a deixasse na rua?"
"Queria que te importasses comigo! Eu era a tua mulher! Estava à tua espera!"
"E eu importo-me! É por isso que estou aqui agora, não estou? Voltei para casa, para ti."
Ele passou as mãos pelo cabelo, um gesto de frustração que eu conhecia tão bem.
"Olha, peço desculpa pelo jantar. A sério. Mas não vamos falar de divórcio. Isso é ridículo."
Ele tentou aproximar-se, para me abraçar, mas eu recuei. O seu toque, que antes me confortava, agora parecia uma violação.
"Não é ridículo, Pedro. É o fim. Eu não consigo mais viver assim."
A sua expressão endureceu. A falsa preocupação desapareceu, substituída por um desprezo frio.
"Sabes que mais? Talvez tenhas razão. Talvez o divórcio seja uma boa ideia."
A sua mudança súbita apanhou-me de surpresa.
"Assim não tenho de andar a pisar em ovos à tua volta o tempo todo, com medo de ferir os teus sentimentos delicados."
Ele cuspiu as palavras, cada uma delas um golpe.
"És tão carente, Ana. Sempre a precisar de atenção, de validação. É cansativo."
Eu olhava para ele, para o homem com quem partilhei a minha vida durante cinco anos, e via um estranho. Um estranho cruel.
"Se eu sou tão cansativa, porque é que não me deixaste há mais tempo?"
Um sorriso trocista brincou nos seus lábios.
"Talvez eu gostasse da conveniência. Ter alguém para cozinhar, para limpar, para me esperar em casa. Mas agora... a Sofia está de volta. E ela não é tão complicada como tu."
O ar foi-me arrancado dos pulmões. Era isso. A verdade nua e crua. Eu era uma conveniência. Um lugar reservado até que a opção melhor aparecesse.
"Sai." A minha voz era um sussurro rouco.
"O quê?"
"Sai da minha casa."
Ele riu, um som oco e desagradável.
"Tua casa? Deixa-me lembrar-te, Ana, que esta casa também é minha. Eu paguei metade dela."
"Então vende a tua metade. Eu não me importo. Só quero que saias."
Virei-lhe as costas, incapaz de olhar mais para o seu rosto. Fui até à janela e olhei para a rua escura. As luzes dos carros passavam, indiferentes ao drama que se desenrolava dentro daquelas quatro paredes.
Ouvi os seus passos atrás de mim. Ele não saiu. Em vez disso, pegou no seu casaco do encosto da cadeira.
"Está bem. Eu saio. Mas não penses que isto acaba aqui. Vais arrepender-te disto, Ana."
A porta da frente bateu com força, o som a ecoar no silêncio da casa vazia. E eu fiquei ali, de pé, a tremer, finalmente sozinha.
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