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Capa do romance A câmera escondida capturou tudo

A câmera escondida capturou tudo

Por sete anos, abandonei o jornalismo para apoiar Heitor Montenegro na política, vivendo como sua esposa oculta. Tudo ruiu quando ele trouxe a amante para nossa casa. Após a mulher forjar uma queda e me acusar, Heitor me agrediu com ódio, escolhendo acreditar nela. Ao renascer naquele exato momento de traição, despertei com sede de justiça. Ele esqueceu um detalhe crucial: a câmera escondida registrou a farsa e a agressão que pretendiam esconder.
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Capítulo 3

Aurora POV:

"Aurora! Você viu o Twitter?" Minha chefe, Sara, nem se deu ao trabalho de cumprimentar. Sua voz estava tensa com uma fúria controlada, um tom que eu sabia que significava problemas. "Olha isso. Agora."

Meus dedos desajeitados tocaram a tela, o ícone do pássaro azul me encarando. Abri o aplicativo, e lá estava, estampado no meu feed como um balde de água gelada. Uma manchete, gritando em letras garrafais e implacáveis.

"MONTENEGRO CONFIRMA ROMANCE COM ASSESSORA BITTENCOURT: UMA HISTÓRIA DE AMOR SINCERA!"

Minha respiração falhou. Rolei para baixo, meus olhos ardendo. Uma foto. Heitor, com o braço possessivamente em volta de Bárbara, exibindo aquele sorriso de político diretamente para a câmera. Bárbara olhava para ele, com os olhos arregalados e adoradores, a bochecha pressionada contra o ombro dele. Pareciam o casal perfeito.

Abaixo, o tweet de Heitor. Simples. Cruel.

"Animado para finalmente compartilhar minha felicidade com o mundo. @BarbaraBittencourt, você traz tanta alegria para minha vida. #OficialmenteJuntos #MeuFuturo"

A resposta de Bárbara foi instantânea, melosa.

"Meu coração é seu, sempre, @HeitorMontenegro. Tão abençoada por compartilhar essa jornada com você."

Uma dor aguda e lancinante atravessou meu peito. Não a dor familiar da traição, mas algo novo. Uma dor de membro fantasma por um futuro que eu um dia desejei desesperadamente. Ele havia dado a ela a afirmação pública que eu ansiei por sete anos. A declaração aberta. O uso casual de "meu futuro".

"Aurora? Você está vendo isso?" A voz de Sara cortou a névoa.

"Estou vendo", sussurrei, minha voz rouca.

"Aquele canalha, manipulador e nojento!" Sara explodiu. "Ele usa seu suposto 'namorado imaginário' como desculpa! Ele tuíta sobre 'salvar a reputação de Bárbara' de rumores causados pelo seu suposto relacionamento falso! Você acredita na audácia?"

Eu acreditava. Eu conhecia Heitor. Essa era a jogada dele. Controlar a narrativa. Me pintar como a ex ciumenta e desequilibrada.

"Ele está tentando fazer você parecer uma perseguidora maluca, uma mentirosa, depois de tudo que você fez por ele", Sara continuou, sua voz subindo de tom. "A esposa legítima, vendo sua carreira afundar porque o marido não se deu ao trabalho de reconhecê-la! É um ultraje!"

"Sara." Eu a interrompi, minha voz calma, quase sem emoção. A dor estava lá, uma pulsação surda, mas foi ofuscada por uma resolução fria e feroz. "Preciso que você faça algo por mim."

"Qualquer coisa, querida. Apenas me diga quem você quer que eu eviscere publicamente primeiro."

"Quero ser transferida para a editoria internacional. A de Genebra. Aquela que eu quase aceitei dez anos atrás."

Um silêncio atordoado. "Genebra? Aurora, por quê? Sua carreira aqui está decolando. Você é uma das nossas principais jornalistas políticas."

"Porque preciso de uma mudança de ares", eu disse, as palavras cuidadosamente escolhidas. "Preciso sair desta... zona de guerra. E preciso fazer o tipo de jornalismo que sempre quis fazer."

"Mas... isso é, na melhor das hipóteses, um movimento lateral agora, querida. Depois de todo esse... escândalo, pode até parecer que você está fugindo."

"Deixe que pensem o que quiserem", afirmei, minha voz firme. "Não estou fugindo. Estou escolhendo um campo de batalha diferente."

"Você tem certeza disso?" Sara perguntou, um toque de inquietação em seu tom.

"Nunca tive tanta certeza."

Fechei os olhos, uma onda de memórias me invadindo. Genebra. Dez anos atrás. Uma oferta para me juntar a uma prestigiosa equipe de investigação internacional. Era o meu sonho. Mas então Heitor, com seus olhos sinceros e toque gentil, me implorou para ficar.

"Aurora, por favor. Não vá. Eu preciso de você aqui. Minha carreira está apenas decolando. Você é minha maior apoiadora. Minha rocha. Vamos construir algo incrível, juntos. Você não pode fazer isso por nós? Por mim?"

Ele fez parecer um sacrifício pelo nosso futuro compartilhado. E eu, sempre a parceira obediente, disse sim. Abri mão de Genebra, da chance de perseguir histórias por continentes, da emoção de descobrir verdades globais. Em vez disso, fiquei em Brasília, tornando-me uma jornalista política, sempre cuidadosa para não ofuscá-lo, sempre pronta para defendê-lo, para girar a narrativa quando sua ambição juvenil se aproximava demais do escândalo.

Quando os pais dele morreram, e os meus logo depois, éramos apenas crianças, na verdade. Tínhamos um ao outro. Ele era meu abrigo, eu era sua âncora. Lembro-me de quando ele entrou na AMAN, um recruta bruto. Eu o observei treinar, seu corpo ficando magro e duro. Uma vez, durante um exercício particularmente extenuante, ele sofreu uma queda, torcendo o tornozelo. Eu estava lá, correndo para o seu lado, ignorando os médicos.

"Idiota", eu murmurei, lágrimas embaçando minha visão enquanto eu gentilmente segurava seu pé. "Por que você se esforça tanto?"

Ele apenas sorriu, um sorriso juvenil e encantador que ainda derretia meu coração. "Por você, Aurora. Sempre por você."

Passei semanas cuidando dele, alimentando-o, lendo para ele. Eu acreditei nele. Eu acreditei em nós.

A oferta da editoria internacional era apenas um sonho então. Ele nunca quis ser político. Ele queria ser um cientista pesquisador, enterrado em laboratórios, descobrindo coisas novas. Mas depois de seus pais, o legado da família, a pressão... ele mudou de caminho, encontrou uma nova ambição. Ele alegou que era por mim, para que pudesse proporcionar uma vida estável. Eu acreditei nisso também.

Balancei a cabeça, limpando as teias de aranha do passado. Chega.

Meu telefone tocou de novo, me assustando. Heitor. O identificador de chamadas mostrava seu nome, um lembrete gritante do homem que eu estava deixando para trás. Hesitei, depois atendi.

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