
A Aurora de Sua Amante, Meu Chão Frio
Capítulo 3
Ponto de Vista de Alana Viana:
O "bom show" que Dênio exigia me corroía. Cada sorriso público, cada toque fingido era uma performance, drenando minha alma. Mas eu tinha um objetivo agora: liberdade. E para alcançá-la silenciosamente, eu primeiro precisava garantir a bênção da minha família, especialmente do meu avô, o patriarca cuja influência rivalizava com a de Geraldo Ferraz. Ele entenderia o delicado equilíbrio entre dever e felicidade pessoal. Ou assim eu esperava. Essa separação, mesmo que silenciosa, seria um golpe em sua posição social cuidadosamente construída.
No dia seguinte, dirigi até a propriedade da minha família, uma imponente mansão em estilo europeu aninhada em um bairro tranquilo e abastado do Morumbi. O cheiro familiar de jasmim e madeira antiga encheu o ar quando entrei. Meus avós me receberam com seu calor habitual, seus rostos vincados com afeto genuíno. Era um contraste gritante com a atmosfera glacial da mansão Ferraz.
"Alana, querida, que surpresa agradável!", exclamou minha avó, me puxando para um abraço. "Raramente te vemos hoje em dia. Como está o Dênio? Está tudo bem depois daqueles rumores horríveis?" Seus olhos, geralmente brilhantes, continham uma pitada de preocupação.
Meu coração doeu. Eles não sabiam nada do vazio frio em que meu casamento havia se tornado.
"Vovó, vovô", comecei, minha voz suave, mas firme, "há algo importante que preciso lhes dizer." Engoli em seco, me preparando para o choque inevitável. "Dênio e eu... decidimos nos separar."
Meu avô, um homem de poucas palavras, baixou o jornal, seu olhar firme e intenso. Minha avó ofegou, a mão voando para a boca.
"Separar? Oh, Alana, querida, é... é por causa daquela atriz, a Kátia?"
"Em parte", admiti, escolhendo minhas palavras com cuidado. "Mas é mais do que isso. Nosso casamento não tem sido... o que nenhum de nós esperava. Estamos separados em tudo, menos no nome, há três anos, vivendo nossas próprias vidas." Fiz uma pausa, depois acrescentei: "O retorno de Kátia apenas acelerou as coisas. Dênio sente um forte senso de obrigação para com ela, e... eu não posso competir com isso. Não quero."
Um silêncio desceu, denso com decepção não dita. Meu avô suspirou, um som profundo e cansado.
"Entendo. Eu esperava... por algo melhor. Mas um casamento sem amor é uma jaula, criança. Se é isso que você realmente quer, então nós te apoiaremos." Sua voz era baixa, mas resoluta.
Minha avó, sempre pragmática, imediatamente começou a se preocupar.
"Mas a fusão! E a reputação da família! O que as pessoas vão dizer?"
"Concordamos em manter isso em segredo por enquanto", expliquei, "até que a fusão com as Indústrias Ferraz esteja totalmente garantida. Apresentaremos uma frente unida por mais algumas semanas. Depois disso, anunciaremos uma separação privada, citando diferenças irreconciliáveis, e gerenciaremos cuidadosamente a narrativa. Ainda será digno, vovô."
Ele assentiu lentamente.
"Dignidade é primordial, Alana. E sua felicidade, em última análise. Se um rompimento limpo é o que você precisa, que assim seja. Mas há uma condição." Ele olhou para mim, um brilho astuto em seus olhos. "Você é uma arquiteta brilhante, criança. Você deixou seu talento definhar neste casamento. Quando isso acabar, você abrirá seu próprio escritório. Um escritório Viana. Nós te apoiaremos totalmente."
Meus olhos se arregalaram. Eu não esperava uma aceitação tão rápida, quase ansiosa. Eu me preparei para discussões, para apelos para reconsiderar. Em vez disso, eles me ofereceram uma tábua de salvação, um caminho não apenas para a liberdade pessoal, mas para a realização profissional. O peso em meus ombros diminuiu consideravelmente. Minha família, com todos os seus valores tradicionais, realmente queria minha felicidade.
"Obrigada", sussurrei, lágrimas picando meus olhos. "Obrigada a vocês dois."
Nesse momento, a porta da frente rangeu e meu primo, Dênis Bastos, entrou, uma pilha de papéis debaixo do braço. Ele sempre gostava de fazer uma entrada, e seus olhos, geralmente calculistas, se iluminaram quando me viram.
"Alana! Na hora certa! Vovô, vovó, acabei de terminar as projeções atualizadas para o novo empreendimento de tecnologia. É isso! É este que vai colocar as Empresas Bastos no mapa!" Ele sorriu, completamente alheio à atmosfera sombria.
Meu avô franziu a testa.
"Dênis, este não é o momento."
"Besteira, vovô!", Dênis acenou com a mão. "Alana está bem aqui. Ela é a esposa de Dênio Ferraz! Ela é nosso maior trunfo nesta fusão! Alana, você tem que falar com Dênio novamente sobre aquelas licenças de software para a iniciativa 'Projeto Fênix'. Ele está enrolando. Se conseguirmos o apoio dele, é negócio fechado!" Ele se inclinou, sua voz baixando conspiratoriamente. "Pense na exposição! No capital! Isso tornará minha startup um nome conhecido!"
Minha avó lançou-lhe um olhar de desaprovação.
"Dênis, sua prima acabou de compartilhar notícias muito difíceis. Não se trata da sua startup agora."
Mas Dênis era implacável.
"Mas é sobre o futuro, vovó! Alana, por favor, apenas uma palavra para Dênio. Ele te escuta, não é? Você é a esposa dele!"
Senti um pavor frio subir pela minha espinha. Dênio me escutando? Isso era uma piada cruel. E a insistência oportunista de Dênis era exatamente o que Dênio detestava.
"Dênis, vou ver o que posso fazer", eu disse, minha voz deliberadamente neutra, tentando apaziguá-lo sem fazer falsas promessas. "Mas não posso garantir nada."
Ele bateu palmas, o rosto iluminado.
"Isso é tudo que eu peço! Você é a melhor, Alana!"
Fiquei para o jantar, um evento mais silencioso do que o habitual, e depois dei minhas desculpas. Meu apartamento temporário, um espaço pequeno, mas elegante, que aluguei para trabalhar na cidade, parecia um santuário. Era meu espaço, livre de memórias ou expectativas. Liguei para minha assistente na manhã seguinte, expondo meus planos para um novo escritório de arquitetura. A ideia de construir algo inteiramente meu, livre da sombra do nome Ferraz, me encheu de uma determinação silenciosa.
Naquela noite, enquanto eu desempacotava livros em minha nova e aconchegante sala de estar, a campainha tocou. Meu coração disparou. Quem poderia ser? Eu não estava esperando ninguém. Pelo olho mágico, eu o vi – Dênio. Ele estava lá, alto e imponente, uma sentinela silenciosa contra as luzes da cidade.
Abri a porta, minha expressão cuidadosamente em branco.
"Dênio. O que você está fazendo aqui?"
Ele examinou o modesto apartamento, um brilho de algo indecifrável em seus olhos.
"Visitando a esposa dedicada", ele disse, sua voz tingida com uma zombaria familiar. "E para finalizar aqueles detalhes irritantes sobre nossa 'agenda de separação privada'. Presumi que você apreciaria a... privacidade de sua nova residência."
"É temporário", corrigi, recuando para deixá-lo entrar. "E prático. Que detalhes?"
Ele passou por mim, sua presença preenchendo o pequeno espaço.
"O cronograma que você propôs. Preciso de detalhes. Quando exatamente você fará sua grande saída?"
"Depois que a fusão estiver totalmente concluída e o jantar da fundação tiver passado sem incidentes", afirmei, minha voz firme. "Preciso de cerca de três meses para estabelecer meu novo escritório, e então podemos anunciar a separação. Discretamente. Podemos dizer que é uma decisão mútua, uma progressão natural após anos separados."
Ele se encostou no batente da porta, um sorriso zombeteiro nos lábios.
"Três meses? Tanta paciência. E quanto a Kátia? Ela estará esperando que eu a leve para algum paraíso isolado imediatamente após nossa 'decisão mútua' ser anunciada?"
Meu sangue gelou.
"Isso não é da minha conta, Dênio", eu disse, minha voz afiada. "Minha preocupação é cumprir minhas obrigações e depois seguir com minha vida, com dignidade."
Ele se endireitou, seus olhos se estreitando.
"Tudo bem. Três meses. Mas durante esses três meses, você continuará a interpretar a esposa dedicada. Sem deslizes. Sem sussurros. E você garantirá que seu primo, Dênis, não tente alavancar nossa 'reconciliação' para nenhum de seus esquemas malucos. Entendeu?" Seu tom era um aviso, uma linha fria e dura na areia.
"Entendido", respondi, meu maxilar tenso. O preço da minha liberdade.
"Bom", ele disse, virando-se para sair. Ele parou no limiar, olhando para trás para mim. "Você vai ficar aqui esta noite?"
"Sim", eu disse, minha voz seca.
Ele deu um aceno curto.
"Estarei na mansão Ferraz." As palavras foram ditas com uma indiferença quase deliberada, mas não consegui afastar a imagem de Kátia, sua forma frágil, seus olhos cheios de lágrimas. Ele estava indo para ela? Sempre para ela.
"Antes de ir", intervi, dando um passo à frente. "Dênis apareceu hoje. Ele ainda está insistindo nas licenças de software do Projeto Fênix. Ele claramente pensa que nossa 'reconciliação' abrirá portas magicamente. Eu disse a ele que falaria com você. Alguma ideia?"
Ele pegou o telefone, já digitando, o rosto indecifrável.
"Vou considerar", ele murmurou, sua atenção já em outro lugar. Então, eu ouvi. Um tom suave, quase terno em sua voz, falando ao telefone, um contraste gritante com sua frieza para comigo. "Kátia? Você está bem? Estou a caminho."
Meu coração despencou. Ele nem se deu ao trabalho de esconder. A verdade me atingiu com a força de um golpe físico. Ele nem estava mais fingindo. Senti a queimação familiar atrás dos meus olhos, mas me recusei a deixar as lágrimas caírem. Eu o observei ir, a porta se fechando atrás dele, me deixando no silêncio do meu apartamento temporário.
Afundei no sofá, pegando meu próprio telefone. Uma busca rápida. As redes sociais de Kátia Guedes. A última postagem, de apenas uma hora atrás: uma foto borrada de um lírio murcho, com a legenda: "Alguns dias, até as pétalas mais fortes caem. Grata por ser sempre minha força."
A ironia não passou despercebida. Ele era a força dela. E eu era... nada. Eu era a esposa que ele exibia em aparições públicas, a arquiteta que ele usava para negócios. Nada mais. O fogo da humilhação queimou fundo em meu peito. Três meses. Apenas mais três meses dessa farsa. Então, eu estaria livre. Verdadeiramente livre.
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