
A Ascensão do Homem Quebrado
Capítulo 3
Quando Maria voltou para casa, já era tarde da noite. Ela jogou a bolsa no sofá com um baque e olhou para mim com desdém.
"Por que a comida não está pronta? Você acha que não faz nada o dia todo e ainda quer que eu te sirva?"
Sua voz estava cheia de desprezo. Nos últimos anos, essa era a maneira como ela falava comigo. Eu era o marido que ficava em casa, o "sustentado" aos olhos dela, responsável por todas as tarefas domésticas.
Eu a ignorei e continuei a arrumar minhas coisas. Ver minha indiferença a deixou ainda mais irritada.
"João, você está me ignorando? Você arrumou outra mulher lá fora? É por isso que você está tão ousado agora?"
Ela se aproximou, agarrou meu celular da mesa e o atirou com força no chão. A tela se estilhaçou instantaneamente, formando uma teia de aranha, assim como nosso casamento.
Eu olhei para o celular quebrado no chão, depois para ela. Meu coração estava calmo, sem nenhuma onda.
Vendo meu silêncio, Maria pareceu se acalmar um pouco. Ela mudou de tom, adotando uma postura magnânima.
"Ok, eu te perdoo desta vez. Vá cozinhar. Estou com fome."
Ela agia como se estivesse me concedendo um grande favor. Essa era a tática dela, um tapa seguido de um afago. Ela achava que eu cederia como sempre.
Mas desta vez, eu não cedi.
"Eu não vou cozinhar," eu disse friamente.
Maria me encarou, incrédula. Seus olhos se estreitaram e seu olhar caiu sobre minha perna. Havia uma longa cicatriz ali, um lembrete permanente de um acidente de carro anos atrás. Eu a empurrei para fora do caminho, salvando-a, mas minha perna ficou gravemente ferida.
Ela suspirou, um traço de algo que poderia ser culpa em seu rosto.
"Eu já pedi ao fotógrafo para tirar novas fotos de casamento para nós. Não vamos mais brigar por causa de coisas insignificantes, ok?"
Novas fotos de casamento. Eu quase ri.
No dia seguinte, por acaso, descobri que as "novas fotos" que ela mencionou não eram para nós. Um amigo me enviou um link. Era o portfólio de um fotógrafo famoso. Nele, havia um ensaio de Maria e Ricardo. Não eram apenas fotos de casamento caras, mas também um ensaio sensual e íntimo. Nas fotos, eles estavam em um iate, com roupas reveladoras, seus corpos pressionados um contra o outro.
Eu me lembrei da noite em que ela voltou para casa. Sua camisa estava amarrotada e seu batom, borrado. Ela disse que tinha trabalhado até tarde.
Naquele momento, uma onda de náusea me atingiu.
Eu me tranquei no banheiro e vomitei, sentindo como se estivesse expelindo todos os sentimentos que ainda tinha por ela.
Quando saí, Maria estava na porta, com os braços cruzados, me olhando com impaciência.
"Você está fingindo estar doente de novo? João, você pode parar de ser tão inútil? Foi por causa da sua fraqueza que nosso filho morreu!"
Nosso filho.
A menção do nosso bebê, que perdemos, foi a gota d'água.
A imagem daquele dia chuvoso voltou à minha mente. Anos atrás, para proteger Maria durante um projeto crucial, eu trabalhei demais e adoeci gravemente. Depois que a empresa decolou, minha saúde nunca se recuperou totalmente, e eu me tornei o "marido sustentado" que ela desprezava. Nós tivemos um filho, nossa pequena luz de esperança.
Mas um dia, enquanto passeávamos perto de um rio, Ricardo, que estava "brincando", empurrou o carrinho do nosso bebê. O carrinho rolou para o rio. Eu pulei atrás dele, apesar da minha perna ferida e da minha saúde frágil. A correnteza era forte demais. Eu não consegui salvá-lo.
Naquele dia, Maria não me consolou. Ela ficou na margem, me humilhando, gritando que eu era fraco, que eu não consegui nem salvar nosso próprio filho.
Agora, ela estava usando a morte do nosso filho para me ferir novamente.
Eu olhei para ela, a mulher cujo rosto já foi meu mundo inteiro. Agora, tudo o que eu sentia era um frio cortante.
A submissão e a tolerância não trazem amor. Trazem apenas abuso e humilhação sem fim.
Eu me virei e comecei a arrumar minhas malas. Desta vez, de verdade.
Maria estava ao telefone, rindo e conversando com Ricardo sobre a próxima viagem deles. Ela nem percebeu que o marido, que ela considerava inútil, estava prestes a deixá-la para sempre.
Ela desligou o telefone e se virou para mim, com um tom casual.
"Ricardo se sente mal pelo que aconteceu na celebração. Ele quer te compensar. Amanhã, na empresa, você deve se desculpar publicamente com ele por seu comportamento rude."
Eu não disse uma palavra. Apenas peguei meu celular reserva e enviei uma mensagem para meu advogado.
"Colete todas as provas. Quero que ela pague por tudo."
Você pode gostar





