
A Ascensão de Gabriel
Capítulo 3
O sol despontava preguiçosamente no horizonte, tingindo o céu de um laranja suave enquanto Gabriel terminava o último ajuste na roda que estava consertando na oficina. Era uma manhã qualquer em Pedrago, mas para ele, tudo estava diferente. A conversa com Clara ainda ecoava em sua mente, e a conexão que haviam começado a construir acendeu uma nova chama de motivação.
Ele sabia que sua vida estava prestes a mudar, mas para isso, teria que trabalhar mais e ser mais do que jamais foi. A ideia de Clara, com sua visão do mundo, e as palavras de Álvaro, com seu desprezo, estavam agora entrelaçadas na mente de Gabriel, criando um impulso incontrolável.
Ao terminar o trabalho, ele se dirigiu à sua casa. A casa modesta e sem grandes pretensões, mas que sempre foi seu porto seguro. Dona Maria o esperava, como sempre, com o sorriso acolhedor de quem sabia que o filho carregava um potencial maior do que todos podiam imaginar.
- Filho, você está com a cabeça ocupada hoje. - disse ela, como quem percebia que algo havia mudado em Gabriel.
Gabriel a olhou, pensativo, e então falou:
- Mãe, estou pronto para fazer algo grande. Vou conseguir mudar nossa vida. Não posso mais esperar.
Dona Maria sorriu, mas seu olhar transmitia uma mistura de preocupação e esperança.
- Eu sempre acreditei em você, Gabriel. Só lembre-se de não perder o que é importante. A riqueza não compra o que é verdadeiro.
Essas palavras ficaram gravadas em sua mente enquanto Gabriel começava a dar forma aos seus planos. O dinheiro, sim, seria importante, mas ele sabia que sua jornada não seria apenas sobre isso. Era sobre se provar capaz, conquistar seu espaço no mundo e, de alguma forma, fazer Clara ver o homem em que ele se transformaria.
Nos dias seguintes, ele mergulhou ainda mais em seu aprendizado, estudando tudo sobre negócios e como aplicar suas habilidades em algo mais rentável. Ele sabia que o mundo digital estava em expanção, mas ainda não tinha os meios para começar do zero. Foi então que, em uma das suas muitas noites de leitura, ele descobriu um mercado emergente: as criptomoedas.
Sem hesitar, Gabriel usou parte do pouco dinheiro que ainda tinha guardado para investir em sua primeira moeda digital. Sabia que o risco era grande, mas a possibilidade de algo maior o motivava a seguir. Ele não podia esperar uma oportunidade perfeita; ele precisava criá-la.
Naquela tarde, enquanto organizava as ferramentas na oficina, Gabriel ouviu a porta da rua se abrir e um leve tilintar de sineta. Ele se virou, surpreso, e viu Clara entrar, com um sorriso amigável e uma curiosidade nos olhos.
- Oi, Gabriel. Posso conversar um pouco com você? - perguntou ela, como se fosse algo natural.
Ele assentiu, ainda surpreso, e gesticulou para que ela se sentasse em uma das cadeiras ao lado de uma das bancadas de trabalho. Clara parecia diferente, mais radiante do que da última vez que a vira. Talvez fosse a luz que entrava pela janela, iluminando seus cabelos castanhos.
- Claro, Clara. O que é? É sobre o livro que você estava lendo? - perguntou, tentando manter a voz tranquila.
Ela sorriu e negou com a cabeça.
- Na verdade, é sobre algo mais. Eu estava lendo sobre novos mercados e ouvi falar de criptomoedas. Você sabe algo sobre isso?
Gabriel ficou um pouco tenso. O interesse repentino de Clara em criptomoedas o fez levantar uma sobrancelha. Ele sabia que o assunto era arriscado; suas mentes, e talvez seu futuro, estavam entrelaçados com aquilo. Mas, ao mesmo tempo, ele queria acreditar que era coisa de sua cabeça.
- Bem... eu é, na verdade, é um assunto que estou estudando. Não é algo que muitas pessoas falam por aqui, mas... pode ser promissor, dependendo de como você lida com isso. – Ele falou, com a voz mais segura do que sentia.
Clara inclinou-se um pouco para frente, um brilho de interesse no olhar.
- Parece interessante. É uma tecnologia nova, não é? É arriscado, mas tem quem diga que pode mudar tudo.
Gabriel respondeu com um aceno, tentado a perguntar por que ela estava interessada, mas sentia que seria invasivo. Em vez disso, ele falou sobre a volatilidade do mercado, as oportunidades e os riscos. Clara ouvia atentamente, mas algo em sua postura fazia Gabriel sentir que havia algo mais por trás disso. Era uma sensação estranha, mas ele decidiu ignorá-la.
- Sabe, Gabriel, sempre achei que você tinha algo especial. Não é todo dia que vejo alguém da vila com tanta determinação. – Ela sorriu, mas era um sorriso diferente, algo que Gabriel não conseguia identificar.
Antes que ele pudesse responder, o barulho da porta da oficina se fez ouvir novamente. Alguém tinha entrado. Era um homem que ele não reconhecia, vestindo um casaco surrado e um olhar vago.
- Você é Gabriel? - perguntou o estranho, com a voz baixa.
Gabriel deu um passo para trás, desconfiado.
- Sim, sou eu. Como posso ajudar?
O homem segurava um pedaço de papel amassado. Sem dizer mais nada, ele estendeu o bilhete para Gabriel. "Cuidado com o que você compartilha."
Gabriel olhou para o bilhete, seu coração disparando. Quando olhou para cima, o estranho já não estava mais ali. Apenas a porta aberta balançava com a brisa que entrava.
Clara, que observava a cena em silêncio, franziu a testa. Algo estava errado, mas ela também sabia que, por enquanto, nada poderia ser dito. Gabriel sentiu o peso da advertência e guardou o bilhete no bolso, tentando fazer de conta que nada havia acontecido. Mas, enquanto Clara se despedia, ele não conseguia tirar da mente a frase que acabara de ler.
- Obrigado pela visita, Clara. - disse, com um sorriso que tentava esconder sua inquietação.
Ela deu um pequeno sorriso e acenou.
- Cuide-se, Gabriel.
E assim, enquanto a tarde se tornava noite, Gabriel sentiu que algo estava prestes a acontecer. Algo que mudaria tudo, e que talvez nem Clara estivesse preparada para enfrentar.
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